casa rosada
O casarão histórico de 1929, conhecido como Casa Rosada, tem projeto original do arquiteto Luiz Signorelli e foi restaurado pela construtora Caparaó entre 2018 e 2020, à época da construção do empreendimento residencial vizinho – Condomínio Casa Rosada – e não contemplava então o uso agora a ele destinado. A Casa foi cedida pela Prefeitura de Belo Horizonte ao Minas Tênis Clube em 2023, por um período de 20 anos, para a implantação de um equipamento de uso cultural.
Foi selecionado o projeto curatorial Habitar o invisível, coabitar a cidade, de Marconi Drummond e Maurício Meirelles, para selar essa transformação. Uma exposição de longa duração que toma o casarão histórico como motivo inicial para pensar sobre a história da casa, da cidade, do território e de nossa presença neste lugar, navegando transversalmente por diversas narrativas culturais de tempos distintos.
O Centro Cultural Gasmig Minas abriga espaços expositivos no casarão principal e áreas administrativas, educativas, sanitários, cozinha e café-bistrô na edificação anexa.
A intervenção arquitetônica para este novo programa partiu das seguintes premissas:
- Valorização da casa como obra inicial que motiva a exposição e a existência do Centro Cultural;
- Intervenção mínima, sem adição de área construída, porém capaz de marcar a mudança de uso;
- Transformação do fundo em frente: criação de um espaço memorável;
- Mudança da entrada, garantindo acessibilidade universal para todas as pessoas.
Um antigo casarão de valor histórico foi transformado em um Centro Cultural. O doméstico passou a ser público, o uso particular passou a ser coletivo. A inclusão e o acolhimento de seus visitantes, em toda a sua diversidade, passaram a integrar as premissas da intervenção.
O vazio existente entre o casarão e o anexo recebeu atenção especial pelo seu grande potencial de articulação e de qualificação ambiental do complexo. Valorizar este espaço externo foi a ação que marcou a intervenção: transformar os fundos em frente para receber com generosidade essa nova fase da história.
Criou-se assim uma pequena praça. Um espaço não especializado que, justamente por não determinar um uso específico, acolhe diversas conformações e convida a criatividade a se desenvolver livremente. Além de receber os visitantes, a praça acolhe grupos, eventos e atividades do programa educativo, como lançamentos de livros, oficinas e exibição de filmes ao ar livre.
Para isso, foram realizadas as seguintes ações arquitetônicas:
- Reposicionamento do elevador: ao relocar o elevador para o afastamento lateral, o vazio foi liberado e tornou-se possível garantir a acessibilidade ao segundo pavimento do anexo. Criou-se, assim, uma parada intermediária, com abertura lateral e um patamar com piso em chapa microperfurada, possibilitando o acesso ao passadiço existente.
- Novo piso acessível: no térreo, um piso em chapa metálica perfurada acomodou as diferenças de nível entre a casa e o anexo, mantendo a visualização do paralelepípedo histórico e evitando a criação de guias de balizamento e guarda-corpos. Foram utilizadas duas gradações de perfuração, acomodando a demanda por acessibilidade universal e valorização do casarão histórico.
- Paisagismo: foi plantado um ipê-amarelo-da-serra na parte central da Praça, garantindo sombra e uma ambientação que remete ao antigo pomar contíguo. O novo tratamento dos muros de divisa lateral e, especialmente, dos fundos do anexo complementou a nova paisagem criada na Praça.
- Mobiliário: um mobiliário leve convida os visitantes à permanência e à fruição desse oásis urbano.
- Novo acesso: um novo acesso foi estabelecido, transferindo a entrada da casa para a antiga cozinha. Uma única parede interna foi demolida, ampliando o espaço de acolhimento, que recebeu um balcão/guarda-volumes para a recepção dos visitantes.
- Café-bistrô: a parte térrea do anexo recebeu uma intervenção delicada, porém marcante, para abrigar o novo café-bistrô.
Para receber as áreas expositivas no casarão histórico, foram realizadas adaptações de infraestrutura predial, acomodando novas instalações elétricas, sanitárias e de climatização. Além disso, foi realizado o restauro de todos os ambientes, solucionando patologias decorrentes de infiltrações.
Para a instalação do Café/Bistrô no anexo, foram executadas as seguintes ações:
- Demolição de paredes internas para criação do salão, com a abertura de vãos compatíveis com o novo uso. Foram realizados reforços estruturais metálicos;
- Criação de marquise para proteção das áreas internas contra intempéries e para unificação das aberturas da fachada;
- Criação de áreas jardinadas no fundo e de novas aberturas para qualificação ambiental, trazendo luminosidade e verde para o interior;
- Nivelamento do piso, uma vez que os ambientes existentes apresentavam desníveis consideráveis. Todos foram nivelados, salientando-se o ladrilho hidráulico da varanda;
- Concentração das áreas molhadas (cozinha e sanitários) em um único setor, onde já se encontravam instalações hidráulicas previamente existentes;
- Criação de depósito seco e escritório no pavimento superior;
- Uso da cor azul em elementos arquitetônicos novos — marquise, estrutura metálica e pintura do teto — de modo a marcar a mudança de uso e criar uma identificação com as mantenedoras.
Dois sanitários acessíveis foram implantados no térreo do anexo, atendendo tanto ao café quanto ao Centro Cultural. O pavimento superior do anexo recebeu também as áreas de apoio administrativo e do setor educativo do Centro Cultural, abrigando as atividades necessárias para o bom funcionamento desse equipamento, com qualidade para seu público e para seus funcionários.
Todas as ações arquitetônicas buscaram ser, a um só tempo, delicadas — valorizando o casarão histórico — e memoráveis — revelando ao público o potencial de um lugar que antes era fundo e que passou a ser frente. Criou-se um pequeno oásis urbano de uso coletivo, com toda a potência simbólica que acompanha as narrativas contemporâneas de inclusão social e de acolhimento de todas as vozes. Uma nova camada de tempo e história foi acrescentada a este espaço.
Expografia
O projeto de expografia de Habitar o invisível, coabitar a cidade organiza o percurso pelos sete núcleos expositivos — Origem, Ancestralidades, O Arraial, A nova capital, Uma rua no tempo, Construtores, operários e arquitetos, e Habitar, coabitar — com um desenho simultaneamente delicado e marcante, em diálogo com os elementos arquitetônicos preexistentes.
Dessa abordagem resulta uma família de mobiliários expositivos que combina unidade e especificidade, capaz de receber a diversidade de suportes das obras apresentadas — pinturas, fotografias, gravuras, maquetes, esculturas, vídeos, entre outros.
São painéis, vitrines, mesas e tablados desenvolvidos com superfícies lisas e brancas, além de detalhes sutis, como pés metálicos delgados e reentrâncias e saliências em madeira imbuia — material presente em elementos originais do casarão, como o notável barrado da sala de jantar.
Com seu desenho contemporâneo, o mobiliário expositivo busca ampliar o diálogo entre presente e passado, permitindo que as características de cada ambiente histórico continuem a se destacar como protagonistas.