concurso para nova sede do sebrae rondônia | 2º lugar
O projeto aqui proposto para a Nova Sede do Sebrae de Rondônia parte da indagação sobre como um edifício a ser construído em Porto Velho, na Amazônia Legal, destinado a essa relevante instituição de apoio e fomento ao empreendedorismo, pode atender plenamente às suas demandas e se constituir como um referencial de excelência em suas respostas arquitetônicas, contribuindo para o avanço de soluções efetivas relacionadas às questões climáticas e ambientais no contexto em que está inserido. A sustentabilidade, compreendida em todas as suas dimensões — cultural, econômica, social e ambiental — é o fundamento sobre o qual se assentam as bases deste projeto. Podemos, assim, sintetizar seu ponto de partida na seguinte pergunta: como reflorestar o pensamento arquitetônico em um edifício urbano?
O partido arquitetônico apresentado desenvolve a ideia de fusão entre o natural e o construído, com grande qualidade estética e alta variedade espacial, explorando a dissolução dos limites entre exterior e interior a partir de soluções de construção simples, conexões diretas com o tecido urbano e um desenvolvimento eficiente de suas demandas de uso — no presente e no futuro. Parte-se da premissa de que um equipamento de uso coletivo, como a Nova Sede do Sebrae, deve assumir um papel protagonista na construção de espaços qualificados que funcionem como referências para o cotidiano e para as boas práticas arquitetônicas. Dessa forma, o projeto se desdobra a partir das seguintes ações:
- Privilegiar o uso público com áreas vegetadas no nível do chão. Todos os ambientes de uso coletivo do programa de necessidades são posicionados no pavimento térreo, facilitando a recepção dos usuários do Sebrae e promovendo o diálogo com a vizinhança. As áreas de convívio são estrategicamente distribuídas para ativar as bordas públicas do edifício por meio de fachadas ativas. Áreas vegetadas se intercalam com os espaços construídos, avançando para o interior da edificação. O nível de implantação desse pavimento está ligeiramente elevado em relação ao perfil natural do terreno, com acessos realizados por planos universalmente acessíveis, permitindo a manutenção do solo original;
- Hall de acesso como espaço articulador do edifício. Desenhado como um atravessamento do lote em seu sentido longitudinal, esse espaço garante acesso universal a partir de todas as ruas que o delimitam e mantém uma recepção unificada, permitindo uma triagem eficiente para as áreas com controle de acesso. Desenvolve-se com clareza de articulação e grande diversidade espacial, oferecendo aos usuários uma leitura facilitada dos setores do Sebrae, rápida orientação espacial e otimização dos controles de segurança e privacidade;
- Intercalação dos volumes construídos, considerando as orientações solares adequadas aos usos previstos. A volumetria é resolvida em apenas três pavimentos, de modo a minimizar os custos de fundação. Os dois primeiros pavimentos são orientados no sentido Leste–Oeste, permitindo que o grande volume do estacionamento atue como barreira à maior incidência solar (Oeste), enquanto os volumes destinados às áreas de trabalho se concentram no terceiro pavimento, orientado Norte–Sul. Essa disposição cria espaços com alta qualidade de ambiências, pés-direitos variados, visadas diversificadas e escalas controladas conforme os usos;
- Cobertura unificadora e fachada vazada. Os volumes estão protegidos por uma grande cobertura em telha metálica termoacústica, com generosos beirais, e por fachadas vazadas que permitem a livre circulação do ar pelos ambientes internos, criando um edifício “respirável”, com ventilação cruzada que reduz a dependência de sistemas artificiais de climatização. Essa estratégia também garante proteção contra a alta radiação solar e a intensa incidência de chuvas, diminuindo o custo de manutenção das fachadas.
Implantação
O projeto desenvolve uma interdependência entre as áreas livres e as áreas edificadas, consolidando o construído e o vegetado em um conjunto indissociável. Os jardins adentram o edifício tanto no pavimento térreo quanto nos superiores: as lajes vegetadas do terceiro pavimento ampliam o isolamento térmico e criam um agradável microclima interno.
No nível térreo, jardins são implantados ao redor de todo o lote preservando as árvores de maior porte existentes e recebendo o plantio de novas espécies nativas e adaptadas ao bioma local, como: taperebá, ipê roxo, ipê amarelo, freijó, sucupira, cumaru e pau mulato, incrementando a biodiversidade na área. Está previsto também o uso de jardins de chuva, que funcionam como sistema natural de manejo das águas pluviais.
Vinte e sete vagas de estacionamento de acesso rápido estão distribuídas junto à Avenida Campos Sales e à Rua Álvaro Maia, destinadas ao público externo (Zona B). Já o acesso principal ao estacionamento dos colaboradores e dos setores institucionais — com cento e quarenta vagas para veículos leves e trinta e quatro para motocicletas — ocorre pela Rua Herbert Araújo. A rampa de acesso ao estacionamento é configurada como faixa de acumulação de veículos. Nessa via também está o acesso de serviço com previsão de vaga de carga e descarga, já a vaga para embarque e desembarque foi posicionada junto à Rua Júlio de Castilho, contemplando assim algumas medidas mitigadoras que possam vir a ser exigidas.
Considerando as características geotécnicas do solo do lote, com predomínio de argila siltosa, optou-se pela construção de apenas três pavimentos, de modo a minimizar os custos de fundação e garantir uma baixa altimetria que se insere com delicadeza no contexto urbano de sua circunvizinhança.
No pavimento térreo, foram privilegiados os ambientes do programa de usos coletivos, contemplando todos os espaços de uso comum e compartilhado da Zona C e aqueles de uso coletivo das Zonas A e D. Junto à Rua Júlio de Castilho, no lado Oeste do lote — onde se localizam o Centro Municipal de Arte e Cultura Escolar Jorge Andrade e a Escola Municipal Meu Pequeno Jones — posicionam-se áreas de convívio e alimentação, de modo a promover a ativação das bordas públicas do edifício.
Partido Arquitetônico: volumes intercalados e vazios vegetados
A disposição dos volumes edificados foi concebida de modo a otimizar a iluminação e a ventilação naturais, promovendo uma ocupação em que os limites entre exterior e interior se dissipam, permitindo que a natureza adentre o edifício. Uma grande cobertura organiza o conjunto, abrigando sob sua sombra os volumes construídos intercalados por vazios e jardins.
Os volumes foram posicionados considerando a orientação solar de suas fachadas: as áreas destinadas ao estacionamento foram localizadas a Oeste, funcionando como barreira para a maior incidência solar, enquanto as maiores áreas de trabalho foram posicionadas no sentido Norte–Sul, a orientação mais conveniente.
Essa disposição espacial, associada ao uso de fachadas ventiladas por elementos vazados, proporciona uma edificação com ampla ventilação natural, reduzindo a dependência de sistemas artificiais de climatização. Além disso, cria espaços com alta qualidade de ambiências arquitetônicas, ancoradas em soluções baseadas na natureza e dotadas de elevado desempenho ambiental.
Organização programática: Funcionalidade, Flexibilidade e Adaptabilidade
A disposição dos ambientes ao longo do edifício considera a gradação de privacidade, os controles, os fluxos e um atendimento eficiente ao seu público: os clientes do Sebrae Rondônia (atuais e futuros empreendedores de micro e pequenas empresas), seus funcionários e colaboradores, bem como o público geral.
O posicionamento da maior parte das vagas de estacionamento no segundo e no terceiro pavimentos do bloco Oeste permitiu que o térreo privilegiasse o acolhimento generoso das áreas comuns, abrigando os ambientes da Zona C, que podem ser compartilhados entre as Zonas A e B. Dessa forma, os espaços da Zona C — a saber, hall principal, área de convivência, espaço kids, área de alimentação, sanitários e guarita — assumem a função de encontro e descompressão, promovendo o convívio informal entre seus diferentes públicos. Além disso, foram também acomodados alguns espaços da Zona B, priorizando o fácil atendimento ao público, contemplando a Unidade Regional de Porto Velho (URPVH), o Sebrae Hub, a Sala Multiuso e as Salas de Educação Executiva.
O bloco Oeste abriga o núcleo de infraestrutura predial, desenvolvido em uma faixa longitudinal e vertical que acomoda as circulações verticais (escadas e elevadores) e instalações hidrossanitárias.
No segundo pavimento do bloco Leste foram posicionados os setores de Espaços do Colaborador do Sebrae em Rondônia e de Suporte e Manutenção da Zona A. Esse pavimento foi solucionado com pé-direito duplo, possibilitando o crescimento de área a partir da construção novos pisos em mezanino, acolhendo a possibilidade de ampliação do quadro funcional do Sebrae.
O terceiro pavimento recebe a maior parte do programa da Zona A, distribuída em três volumes distintos que conformam escritórios panorâmicos, com flexibilidade para adaptação de leiaute ao longo do tempo e capacidade de acomodar mudanças espaciais inerentes a este tipo de uso.
Construção e sustentabilidade
A tectônica desta proposta é ancorada nos preceitos da Arquitetura Bioclimática, partindo de sua concepção espacial e se desenvolvendo em suas escolhas construtivas, que priorizam a utilização de materiais de construção duráveis e resilientes às variações climáticas.
A estrutura da macro cobertura é leve e desenvolvida em madeira laminada colada (MLC), escolha que reduz as emissões de carbono e transforma a estrutura em um ativo climático positivo.
A malha estrutural adotada para as lajes é de 7,50 x 7,50m, coordenada em submúltiplos de 1,5m, dimensões que promovem uma modulação compatível com diferentes sistemas construtivos. Em função da dotação orçamentária prevista, optou-se pela utilização de estrutura de concreto moldada in loco, com lajes nervuradas de simples execução e alta resiliência, capazes de suportar eventos extremos. A modulação adotada permite que o sistema utilizado seja metálico ou em madeira laminada colada, a depender da disponibilidade de maior orçamento.
Para as vedações externas o material predominante é o tijolo maciço, que garante alta durabilidade, resistência e bom desempenho de térmico e acústico. Variações no assentamento desenvolvem fachadas sombreadas e ventiladas nos blocos Leste e Oeste, promovendo ventilação permanente nas áreas que não demandam fechamento, como o estacionamento, e sombreamento das áreas de longa permanência, como os espaços de convivência e trabalho.
Quanto à gestão da água, são previstos sistemas de captação e reuso de águas pluviais e cinzas. Além de paisagismo funcional, com jardins de chuva e uso de espécies nativas do bioma amazônico, que contribuem para a biodiversidade, qualificam o microclima e ajudam no controle de enchentes.
Também está prevista a utilização de energias renováveis, com a instalação de painéis fotovoltaicos para geração de energia limpa, reduzindo a dependência da rede elétrica e as emissões de carbono.
O pensamento arquitetônico é reflorestado ao reconhecer os saberes existentes — seja na natureza, nos povos originários ou na tradição da Arquitetura Moderna Brasileira — e ao aplicá-los com economia de recursos, extraindo o máximo de expressão poética de cada elemento construído.
Assim foi concebida esta proposta para o Sebrae Rondônia: uma arquitetura que revisita o passado e aponta para um futuro em que o natural e o construído convivam de modo harmonioso, com limites suavemente diluídos.