{"id":8923,"date":"2024-03-11T17:24:00","date_gmt":"2024-03-11T20:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/arquitetosassociados.arq.br\/?p=8923"},"modified":"2024-03-22T14:45:33","modified_gmt":"2024-03-22T17:45:33","slug":"utopias-da-vida-comum-17o-bienal-de-arquitetura-de-veneza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquitetosassociados.arq.br\/?p=8923","title":{"rendered":"Utopias da Vida Comum | 17\u00ba Bienal de Arquitetura de Veneza"},"content":{"rendered":"<p>O texto a seguir consiste em fragmentos do cat\u00e1logo da representa\u00e7\u00e3o brasileira na 17\u00aa Mostra Internacional de Arquitetura \u2013 La Biennale di Venezia: Utopias da vida comum (2021).<\/p>\n<p>Clique <a href=\"https:\/\/issuu.com\/bienal\/docs\/2107mia_catalogo_pt-br_fg\">aqui<\/a> para acessar o cat\u00e1logo completo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>01 &#8211; UTOPIAS COMO LUGAR DA IMAGINA\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Carlos Alberto Maciel<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pela primeira vez, no hist\u00f3rico das representa\u00e7\u00f5es brasileiras nas Bienais Internacionais de Arquitetura de Veneza, um interregno de dois anos separou o convite aos curadores e a abertura da mostra. Na motiva\u00e7\u00e3o desse intervalo se encontra uma trag\u00e9dia: a pandemia que vem assolando o mundo, e o Brasil n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o. Nesse mesmo intervalo transcorreu a concep\u00e7\u00e3o, paralisa\u00e7\u00e3o, revis\u00e3o, consolida\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do conte\u00fado curatorial que reunimos nesse livro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tema da 17\u00aa Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, definido pelo curador geral Hashim Sarkis, apresenta a pergunta \u201cComo viveremos juntos?\u201d. Utopias da vida comum dialoga com essa quest\u00e3o de diversos modos. Nossa primeira iniciativa consistiu em olhar para o Pavilh\u00e3o Brasileiro em Veneza e repensar seu espa\u00e7o. Ao longo dos anos ele sofreu in\u00fameras interven\u00e7\u00f5es que apagaram algumas de suas caracter\u00edsticas mais marcantes. A principal delas era a abertura da primeira sala para os terra\u00e7os laterais com generosas vidra\u00e7as, fechadas por dois dep\u00f3sitos. Propusemos uma restaura\u00e7\u00e3o completa do pavilh\u00e3o e sua reabertura. Abrir portas seria uma resposta concreta \u00e0quela pergunta colocada por Sarkis. Infelizmente essa iniciativa n\u00e3o foi poss\u00edvel devido a toda a mudan\u00e7a de contexto que todos conhecemos bem. Mas a ideia persiste, foi sinalizada na exposi\u00e7\u00e3o e est\u00e1 registrada aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma segunda maneira de buscar responder \u00e0quela quest\u00e3o principal \u00e9 o pr\u00f3prio tema que propusemos investigar: as utopias da vida comum. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A pergunta sobre como viveremos juntos carrega em si a ideia de utopia no sentido mais fundamental, que pressup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o de outros lugares e outras ordens, futuras, diferentes da existente, em que igualdade, justi\u00e7a social e fraternidade prevale\u00e7am em organiza\u00e7\u00f5es sociais verdadeiramente comprometidas com a coletividade. A utopia \u00e9 algo da ordem da imagina\u00e7\u00e3o, uma for\u00e7a motriz que desloca o presente, alterando a rota do desastre \u2013 como dizia Paulo Mendes da Rocha e nos lembra sempre Alexandre Delijaicov \u2013 em outras dire\u00e7\u00f5es e propiciando a transforma\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ar o olhar das utopias sobre a vida cotidiana e as pessoas, e n\u00e3o sobre as produ\u00e7\u00f5es eruditas e hegem\u00f4nicas da arquitetura e das cidades, nos permite reimaginar o mundo que chega at\u00e9 n\u00f3s, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, para reinvent\u00e1-lo e sonhar outros mundos poss\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por \u00faltimo, Utopias da vida comum responde ao tema \u2013 e ao chamado do curador geral \u2013 ao convocar outras vozes e novas vis\u00f5es sobre arquitetura para aumentar o nosso mundo: da arte, do cinema, da fotografia, e do jornalismo; da hist\u00f3ria, da economia e das ci\u00eancias sociais; da pedagogia, da agroecologia e da cultura dos povos Guarani; dos pensamentos decolonizador e feminista; das pr\u00e1ticas colaborativas e dos movimentos sociais. Esses m\u00faltiplos olhares constituem um caleidosc\u00f3pio que nos faz entrever a extens\u00e3o e a relev\u00e2ncia daquela ideia \u2013 a utopia, ou as utopias, t\u00e3o diversas e plurais \u2013 que em v\u00e1rios momentos orientou a a\u00e7\u00e3o de brasileiras e brasileiros para redefinir o rumo de suas vidas e, por conseguinte, deslocar o fio da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>02 &#8211; UTOPIAS DA VIDA COMUM<\/b><\/p>\n<p>&#8220;<i><span style=\"font-weight: 400;\">Ningu\u00e9m sabe como o mundo vai ser daqui a cinquenta anos. S\u00f3 sabemos de uma coisa: ser\u00e1 totalmente diferente do que \u00e9 hoje. Algu\u00e9m podia imaginar quando acabou a guerra? Que o mundo ia mudar tanto? H\u00e1 uma reinven\u00e7\u00e3o do mundo que o desenvolvimento est\u00e1 fazendo. Portanto, a coisa mais importante para o brasileiro \u00e9 inventar o Brasil que n\u00f3s queremos. Antes do Brasil existir, como era o mundo? O Brasil nasce sob o signo da Utopia, a Terra sem Males.&#8221;\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\"> -Darcy Ribeiro, Antrop\u00f3logo brasileiro <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Fragmento do document\u00e1rio O Povo Brasileiro, de Isa Grinspum Ferras)<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 mais de 5 mil anos o povo Guarani vagava pelo territ\u00f3rio \u00e0 procura do solo virgem de uma \u201cTerra sem Males\u201d, um lugar que seria um espelho da terra, mas sem fome, guerra e doen\u00e7as. Nos processos de coloniza\u00e7\u00e3o, essa migra\u00e7\u00e3o constituiu um movimento de resist\u00eancia dos povos origin\u00e1rios. A utopia guarani antecipa um modo moderno de imaginar o futuro que associa os avan\u00e7os sociais \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o de novos territ\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Amplificar o sentido p\u00fablico do espa\u00e7o, acolher a diferen\u00e7a, reduzir as desigualdades e preparar o territ\u00f3rio para oferecer \u00e0 sociedade plataformas abertas para a constru\u00e7\u00e3o de uma conviv\u00eancia plena em toda a sua complexidade, sem sublimar suas contradi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o valores que orientaram experi\u00eancias da arquitetura moderna brasileira e comparecem em iniciativas contempor\u00e2neas, permitindo imaginar a constru\u00e7\u00e3o de \u201coutros lugares\u201d \u2013 utopias \u2013 para a vida comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Futuros do Passado retrata um momento em que ainda vigorava a cren\u00e7a de que o Brasil era o \u201cpa\u00eds do futuro\u201d e tudo estava por ser constru\u00eddo. Sem nostalgia, os ensaios fotogr\u00e1ficos de Luiza Baldan e Gustavo Minas revelam a for\u00e7a e os desvios da apropria\u00e7\u00e3o cotidiana recente em duas obras que a seu tempo foram exemplares dos ideais transformadores da modernidade: o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho (1947), no Rio de Janeiro, e a Plataforma Rodovi\u00e1ria de Bras\u00edlia (1957). Uma terceira obra que integra aquele momento \u00e9 este pavilh\u00e3o brasileiro em Veneza. Reverter sua degrada\u00e7\u00e3o em um delicado restauro e reabrir as suas vidra\u00e7as para o Giardini foram pontos de partida na discuss\u00e3o sobre como viveremos juntos, o que infelizmente n\u00e3o se realizou pelo atual contexto, mas que permanece na condi\u00e7\u00e3o de uma outra utopia, simbolizadas nas paredes pretas desta sala.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contemporaneamente, construir novos edif\u00edcios j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a principal urg\u00eancia. Repensar as infraestruturas, conferindo-lhes novas e m\u00faltiplas funcionalidades com desenhos mais prop\u00edcios ao usufruto coletivo e requalificar extensos conjuntos edificados das \u00e1reas centrais em processo de obsolesc\u00eancia s\u00e3o desafios emergentes. Seria poss\u00edvel redefinir toda uma metr\u00f3pole a partir da invers\u00e3o da mobilidade, incorporando seus rios como elementos indutores da mobilidade e da vida urbana? Seria desej\u00e1vel renovar edif\u00edcios abandonados, reocupando-os para a habita\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis? Refletindo sobre a possibilidade de revers\u00e3o dos principais problemas das metr\u00f3poles brasileiras, \u201cFuturos do Presente\u201d apresenta dois filmes especialmente comissionados para a mostra que refletem poeticamente sobre essas quest\u00f5es, imaginando a vida ressignificada com a transforma\u00e7\u00e3o das infraestruturas para habitar e circular nas metr\u00f3poles. As duas iniciativas operam sobre o existente, n\u00e3o em um \u201coutro lugar\u201d, invertendo a l\u00f3gica de exclus\u00e3o imposta pela dicotomia entre centro \u2013 valorizado pela farta presen\u00e7a de planejamento, infraestrutura e investimento \u2013 e periferia \u2013 ca\u00f3tica, negligenciada e desprovida da presen\u00e7a do poder p\u00fablico. Ao sugerirem uma reconcilia\u00e7\u00e3o com a natureza em sentido amplo, iluminam novas possibilidades para uma conviv\u00eancia mais rica, diversa, qualificada e transformadora, menos desigual, mais amig\u00e1vel e ambientalmente consciente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem perder de vista que toda utopia carrega em si a ideologia de quem a prop\u00f5e, como afirmou Paul Ricoeur, pensar em utopias \u00e9 hoje, no mundo contempor\u00e2neo, uma urg\u00eancia incontorn\u00e1vel. As utopias da vida comum aqui presentes sinalizam a possibilidade de concilia\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a como uma potente ferramenta para lidarmos contemporaneamente com as d\u00edvidas socioambientais da coloniza\u00e7\u00e3o e de uma urbaniza\u00e7\u00e3o cuja supera\u00e7\u00e3o \u00e9 urgente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;O reexame da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds se imp\u00f5e. O balan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira \u201cpopular\u201d \u00e9 necess\u00e1rio, mesmo se pobre \u00e0 luz da alta cultura. Este balan\u00e7o n\u00e3o \u00e9 o balan\u00e7o do folklore, sempre paternalisticamente amparado pela cultura elevada, \u00e9 o balan\u00e7o \u201cvisto do outro lado\u201d, o balan\u00e7o participante. \u00c9 o Aleijadinho e a cultura brasileira antes da Miss\u00e3o Francesa. \u00c9 o nordestino do couro e das latas vazias, \u00e9 o habitante das vilas, \u00e9 o negro e o \u00edndio. Uma massa que inventa, que traz uma contribui\u00e7\u00e3o indigesta, seca, dura de digerir.&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">-Lina Bo Bardi. <em>Tempos de grossura: o design no impasse<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim nos ensinava 41 anos atr\u00e1s Lina Bo Bardi, laureada nesta Bienal com o Le\u00e3o de Ouro pelo conjunto da Obra. Esta exposi\u00e7\u00e3o reconhece e homenageia a import\u00e2ncia de tantas pessoas n\u00e3o nascidas em solo brasileiro que, como Lina, o adotaram e assimilaram o pa\u00eds como seu lugar de vida e que acreditam e trabalham pela igualdade em um pa\u00eds t\u00e3o desigual. \u00c9 um convite \u00e0 reflex\u00e3o sobre as pot\u00eancias da imagina\u00e7\u00e3o e da poesia para outros mundos poss\u00edveis, e sobre a possibilidade de reconhecer a apropria\u00e7\u00e3o popular da alta cultura, re-significando os escombros da modernidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>03- SOBRE A EXPOGRAFIA<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Arquitetura como construir portas<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conceber uma exposi\u00e7\u00e3o de arquitetura implica necessariamente em refletir sobre o espa\u00e7o que a abrigar\u00e1. O Pavilh\u00e3o Brasileiro no Giardini, em Veneza, \u00e9 um edif\u00edcio moderno de forte valor simb\u00f3lico dada a sua concep\u00e7\u00e3o como espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o. Reconhecer sua espacialidade e a integra\u00e7\u00e3o com o local em que se implanta foi um ponto de partida para a concep\u00e7\u00e3o curatorial e expogr\u00e1fica e para a defini\u00e7\u00e3o de um legado da representa\u00e7\u00e3o brasileira na 17\u00aa Exposi\u00e7\u00e3o Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A localiza\u00e7\u00e3o privilegiada do pavilh\u00e3o no Giardini, protagonista por se implantar no eixo da ponte que conecta as duas partes do parque, refor\u00e7a a import\u00e2ncia de sua articula\u00e7\u00e3o com o entorno imediato. Concebido originalmente como dois espa\u00e7os de distintas escalas e propor\u00e7\u00f5es, cortados por um eixo articulador que repercute sua implanta\u00e7\u00e3o e define seus acessos, apresentava uma diferencia\u00e7\u00e3o clara quanto \u00e0 abertura e intimidade. Enquanto o segundo bloco, de maiores dimens\u00f5es e maior altura, configurava \u2013 e ainda configura \u2013 um espa\u00e7o interior com grande intimidade, claramente separado do exterior, o primeiro volume apresentava, al\u00e9m do acesso marcado no eixo principal, uma dupla abertura no sentido transversal, com vidra\u00e7as que promoviam a total integra\u00e7\u00e3o visual do espa\u00e7o interior com os terra\u00e7os laterais, demarcados por bancos no seu per\u00edmetro. Essa integra\u00e7\u00e3o foi paulatinamente desconfigurada com a inser\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is em metal perfurado para prote\u00e7\u00e3o solar e posteriormente com a implanta\u00e7\u00e3o de duas divis\u00f3rias opacas, conformando dois pequenos dep\u00f3sitos, um em cada extremidade do espa\u00e7o. Essa interven\u00e7\u00e3o, que viabiliza a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de apoio, por outro lado reduz a variedade espacial e ambiental do pavilh\u00e3o, uniformizando a experi\u00eancia das salas. Por sua relev\u00e2ncia, por se tratar de um edif\u00edcio que integra o conjunto dos principais exemplos da arquitetura moderna brasileira, e por ecoar positivamente no contexto de uma exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a primeira a\u00e7\u00e3o ratorial proposta foi a reabertura da primeira sala nas suas duas extremidades, restituindo-lhe sua espacialidade original.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para tanto, duas a\u00e7\u00f5es foram planejadas: primeiro, a elimina\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos, que, por serem imprescind\u00edveis ao bom funcionamento das exposi\u00e7\u00f5es, seriam transferidos para a segunda sala, em posi\u00e7\u00e3o equivalente \u00e0 que ocupavam na primeira sala, limitados \u00e0 altura da parede expositiva existente de modo a n\u00e3o alterar a qualidade da luz superior perimetral que varre todo o espa\u00e7o; segundo, o restauro das esquadrias originais, repondo as vidra\u00e7as. Completava a iniciativa a elabora\u00e7\u00e3o de um anteprojeto para restauro de todo o pavilh\u00e3o, recuperando suas impermeabiliza\u00e7\u00f5es, renovando os revestimentos e substituindo os acr\u00edlicos dos lanternins da segunda sala por vidro transl\u00facido, recuperando a materialidade original.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia de reabrir portas fechadas repercute positivamente o tema geral da Bienal \u2013 Como viveremos juntos? \u2013, ao ampliar as possibilidades de conv\u00edvio, tornando p\u00fablica parte da exposi\u00e7\u00e3o para quem circula pelo Giardini. Trata-se em \u00faltima inst\u00e2ncia de uma potencializa\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter p\u00fablico e aberto que se quer para o Pavilh\u00e3o do Brasil, materializando, com uma a\u00e7\u00e3o direta no espa\u00e7o f\u00edsico, o conte\u00fado curatorial da exposi\u00e7\u00e3o. Infelizmente essa a\u00e7\u00e3o, dada a mudan\u00e7a do contexto em que se realizou a mostra, n\u00e3o se fez poss\u00edvel por diversas raz\u00f5es. Para sinalizar a ideia, que esteve na base conceitual da proposta curatorial, representamos nas paredes que n\u00e3o puderam ser suprimidas, agora pretas, o desenho daquelas desejadas aberturas, apresentadas junto \u00e0s fotografias originais do edif\u00edcio ainda n\u00e3o mutilado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto a primeira sala confronta as duas aus\u00eancias atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o das vidra\u00e7as, na segunda e maior sala do pavilh\u00e3o, a introspec\u00e7\u00e3o original \u00e9 enfatizada com a cria\u00e7\u00e3o das duas salas escuras que apresentam os dois filmes comissionados especialmente para a exposi\u00e7\u00e3o. Uma contradi\u00e7\u00e3o de partida que a proposta expogr\u00e1fica teve de enfrentar foi o confronto entre a espacialidade original \u2013 uma sala longil\u00ednea com ilumina\u00e7\u00e3o difusa superior \u2013 e a espacialidade fragmentada das tr\u00eas salas, com o bloqueio da luz natural em duas delas, para viabilizar a melhor condi\u00e7\u00e3o ambiental para a imers\u00e3o cinematogr\u00e1fica. No trecho central, que conforma uma sala intermedi\u00e1ria de natureza h\u00edbrida \u2013 acesso, transi\u00e7\u00e3o e amortecimento entre as duas experi\u00eancias imersivas, informa\u00e7\u00e3o sobre os conte\u00fados e sa\u00edda \u2013 manteve-se a fresta de luz natural das aberturas superiores, a fim de modular a experi\u00eancia da imers\u00e3o das salas escuras, em um contraste que prepara tamb\u00e9m para a sa\u00edda a c\u00e9u aberto que se faz pela porta posterior no eixo principal do pavilh\u00e3o. A presen\u00e7a da grande viga-caixa em concreto flutuando sobre a sala demarca enfaticamente a sua biparti\u00e7\u00e3o. Aqui comparece o principal elemento expogr\u00e1fico desse espa\u00e7o: duas paredes espelhadas quase paralelas repetem infinitamente a imagem da viga \u2013 e dos visitantes que atravessam de um lado ao outro, entre salas, e da entrada \u00e0 sa\u00edda do pavilh\u00e3o. Ao promoverem o espelhamento quase infinito \u2013 limitado pela pequena angula\u00e7\u00e3o \u2013, recriam virtualmente o espa\u00e7o dilatado longitudinalmente que a sala apresenta na sua conforma\u00e7\u00e3o original, entretanto sugerindo uma deforma\u00e7\u00e3o tanto de sua escala como de sua geometria, promovidas pela aparente circularidade produzida pela angula\u00e7\u00e3o entre espelhos. Essa dilata\u00e7\u00e3o que sugere uma extens\u00e3o ao infinito reverbera, virtualmente, a mesma extens\u00e3o \u2013 f\u00edsica e visual \u2013 que seria recuperada com a abertura das vidra\u00e7as da primeira e menor sala.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma rela\u00e7\u00e3o menos literal, a presen\u00e7a dos espelhos recoloca o espectador na cena entre filmes, incluindo-o no espa\u00e7o e no tempo da exposi\u00e7\u00e3o; remete \u00e0 ideia estruturante do filme Metr\u00f3pole Fluvial, de Amir Admoni, que imagina a coexist\u00eancia dial\u00e9tica entre dois tempos dos rios de S\u00e3o Paulo atrav\u00e9s do recurso ao espelhamento da imagem, em uma amb\u00edgua navega\u00e7\u00e3o entre tempos e lugares; Por \u00faltimo, repercute no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o a discuss\u00e3o sobre a heterotopia foucaultiana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Michel Foucault, na confer\u00eancia ministrada em 1967 intitulada De Espa\u00e7os Outros, distingue as utopias \u2013 aloca\u00e7\u00f5es sem lugar real \u2013 das heterotopias \u2013<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> \u201c (\u2026) lugares reais, lugares efetivos, lugares que s\u00e3o desenhados na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o da sociedade e que s\u00e3o esp\u00e9cies de contra-aloca\u00e7\u00f5es, esp\u00e9cies de utopias efetivamente realizadas, nas quais as aloca\u00e7\u00f5es reais, todas as outras aloca\u00e7\u00f5es reais que podem ser encontradas no interior da cultura, s\u00e3o simultaneamente representadas, contestadas e invertidas; esp\u00e9cies de lugares que est\u00e3o fora de todos os lugares, embora sejam efetivamente localiz\u00e1veis\u201d49. Base da abordagem inicial de Admoni para a conceitua\u00e7\u00e3o da Metr\u00f3pole Fluvial, \u00e9 tamb\u00e9m uma lente potente para mirar o fen\u00f4meno das ocupa\u00e7\u00f5es50. A rela\u00e7\u00e3o entre os espelhos e a cria\u00e7\u00e3o de imagens ut\u00f3picas e heterot\u00f3picas \u00e9 melhor apresentada pelas palavras do pr\u00f3prio Foucault: <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;<i>E creio que entre as utopias e essas aloca\u00e7\u00f5es absolutamente outras, essas heterotopias, haveria, sem d\u00favida, uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia mista, conjugada, que seria o espelho. O espelho, afinal de contas, \u00e9 uma utopia, pois \u00e9 um lugar sem lugar. No espelho, eu me vejo onde n\u00e3o estou, em um espa\u00e7o irreal que se abre virtualmente atr\u00e1s da superf\u00edcie; estou ali onde n\u00e3o estou; uma esp\u00e9cie de sombra que me confere minha pr\u00f3pria visibilidade, que me permite olhar-me ali onde sou ausente: utopia do espelho. Mas \u00e9 igualmente uma heterotopia, na medida em que o espelho existe realmente e tem, no local que eu ocupo, uma esp\u00e9cie de efeito de retorno; \u00e9 a partir do espelho que me descubro ausente do local onde estou, j\u00e1 que me vejo ali. A partir desse olhar, que de certa forma se dirige a mim, do fundo desse espa\u00e7o virtual do outro lado do vidro, eu retorno a mim e recome\u00e7o a dirigir meus olhos a mim mesmo e a me reconstituir ali onde estou. O espelho funciona como uma heterotopia, no sentido de que ele torna esse local, que eu ocupo no momento em que me olho no vidro, ao mesmo tempo absolutamente real, em liga\u00e7\u00e3o com todo o espa\u00e7o que o cerca, e absolutamente irreal, j\u00e1 que tal local precisa, para ser percebido, passar por esse ponto virtual que est\u00e1 ali.<\/i>&#8220;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">-Michel Focault.\u00a0<i>De outros espa\u00e7os<\/i>.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dado fundamental que perpassa a proposta curatorial \u00e9 o tempo, que informa a escolha dos ensaios fotogr\u00e1ficos das duas obras da arquitetura moderna brasileira e comparece como elemento estruturante dos filmes comissionados para a mostra. Quando Lucio Costa visita a Plataforma Rodovi\u00e1ria de Bras\u00edlia e constata que \u201co sonho foi menor do que a realidade\u201d, est\u00e1 em \u00faltima inst\u00e2ncia assumindo a necessidade da a\u00e7\u00e3o do tempo sobre os artefatos constru\u00eddos para sedimentar atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o novos e imprevistos sentidos. Essa compreens\u00e3o do tempo subjaz aos fundamentos principais que orientaram a expografia, que procuram revelar m\u00faltiplas camadas da exist\u00eancia de um artefato arquitet\u00f4nico relevante desde a mais literal altern\u00e2ncia temporal entre abertura e fechamento das vidra\u00e7as at\u00e9 a menos literal revela\u00e7\u00e3o de outros espa\u00e7os, virtuais, que podem acontecer no tempo do visitante, no mundo refletido e distorcido dos espelhos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto a seguir consiste em fragmentos do cat\u00e1logo da representa\u00e7\u00e3o brasileira na 17\u00aa Mostra Internacional de Arquitetura \u2013 La [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-8923","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","work_typology-instalacao","work_status-concluida"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v18.5.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Utopias da Vida Comum | 17\u00ba Bienal de Arquitetura de Veneza &mdash; 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