Moradia Estudantil UNIFESP

Arquitetos Alexandre Brasil, Bruno Santa Cecília, Carlos Alberto Maciel, Mariana Cretton, Paula Zasnicoff Cardoso, Rafael Gil e Thomas Lopes Whyte
Colaboração Mariana de Paula e Vitória Paulino Alves
Local São José dos Campos, SP, Brasil
Projeto 2015

A proposta para a nova Moradia Estudantil do Campus São José dos Campos da UNIFESP se define a partir da compreensão do edifício como um elemento estruturador da paisagem, editando a topografia original para abrigar os espaços coletivos e a ela sobrepondo duas barras, que se orientam a partir dos limites do terreno e se escalonam conforme a suave variação topográfica, enfatizando a linearidade das faixas de área verde de preservação permanente. O partido adotado pressupõe, portanto, uma intervenção a um só tempo arquitetônica e paisagística, e procura constituir um recinto qualificado claramente delimitado pelos dois pavilhões de habitação. Assim, o projeto se define a partir da sobreposição de três elementos principais: um sistema modular regular, um vazio articulador e um redesenho da topografia (1). O projeto se realiza a partir de dois sistemas construtivos distintos: um sistema modular industrializado, de natureza tectônica, que organiza os espaços típicos que apresentam ordem e repetição, e uma construção pesada, estereotômica, em concreto armado, que redesenha o chão e reconstrói a paisagem, abrigando os espaços atípicos (2). A tensão e a diferenciação entre um desenho do chão e um desenho da construção é uma questão central que se procura explorar.

Construindo a paisagem: implantação e articulação territorial O projeto parte de um sistema ambiental baseado em um módulo estrutural quadrado de 4,80 por 4,80 metros, sendo o núcleo de moradia e a circulação coletiva inseridos em um conjunto de quatro módulos (9,60 por 9,60 metros). Esse sistema organiza todos os espaços privados, de uso coletivo imediato e de uso coletivo intermediário a partir da rede modular que se sobrepõe à topografia suave e permite implantar os apartamentos familiares ao nível do chão, aproveitando as áreas livres e ajardinadas como extensão aberta das unidades. De um lado, a ordenação das malhas de cada um dos pavilhões é definida pela articulação territorial, assegurando, apesar da sutil angulação entre as barras, a abertura aproximada ao quadrante leste de todos os espaços privativos. De outro lado, as áreas comuns redesenham o chão, estabelecendo uma diluição dos limites entre edifício e paisagem. Ambas as estratégias – do desenho do chão e do desenho da construção – objetivam ampliar a abertura visual para a paisagem circundante, tanto nas unidades habitacionais (3) quanto nos espaços coletivos (4). Além de ampliar a integração entre edifício e paisagem natural, esta proposta procura editar na organização do edifício um raciocínio que reforce a qualificação do intervalo entre as barras como um recinto com alta vitalidade, estimulando a integração e a continuidade espacial entre espaços internos, jardins e a paisagem. Um acesso principal na cota elevada se desenvolve a partir de uma rampa suave que mergulha e acede à área de acolhimento e convívio, de onde partem os acessos às duas barras. De outro lado, na cota baixa, junto à área de convivência onde se propõe implantar a quadra esportiva, um acesso alternativo favorece a integração futura com a fase de expansão, e estimula o uso da área de convivência como extensão natural da moradia.

Usos: clara diferenciação entre público e privado Os núcleos de moradia se organizam a partir de nós de circulação vertical que abrigam também os espaços de uso coletivo intermediário a cada pavimento. Esses nós de circulação vertical se interligam em diferentes cotas, por sob as lajes ajardinadas que abrigam os espaços de convívio, e também ao ar livre, propiciando o usufruto daqueles espaços abertos (5). A estrutura ambiental das circulações, que irradiam a partir das áreas de convívio ocultas sob o redesenho do chão e se distribuem linearmente em cada uma das barras a partir desses dois pontos focais em cada barra, contribui para diferenciar claramente os espaços de convívio coletivo e equaciona o escalonamento das barras. Sempre que possível, as demarcações entre circulações e espaços de permanência são eliminadas ou reduzidas ao mínimo, de modo a reforçar um sentido de continuidade e integração que favoreça a interação entre os moradores. Uma rica justaposição de percursos de sol e sombra, sob e sobre as lajes ajardinadas e com espelhos d’água, com desníveis aos modos de bancos, estimulam a apropriação das áreas livres como extensão dos espaços de convivência. Em todos os casos, o pleno atendimento à acessibilidade universal se coloca como princípio fundamental, tanto para os espaços de uso coletivo como para as áreas comuns e livres, e ainda para os espaços privados que pretendem acolher portadores de necessidades especiais.

Os núcleos de moradia: isonomia, qualidade ambiental, privacidade, flexibilidade Um princípio fundamental que orienta o desenho dos núcleos de moradia é a oferta de condições rigorosamente iguais quanto à área disponível e à qualidade ambiental para todos os moradores, constituindo um sentido de isonomia que evita privilegiar uns em detrimento de outros. O rigoroso dimensionamento das unidades e a abertura de todos os quartos aproximadamente para leste, gerando a possibilidade de ventilação cruzada em todos os apartamentos e assegurando a privacidade em relação às circulações de acesso, constitui um núcleo duro, sob o ponto de vista conceitual, dessa isonomia. Reforça esse sentido a padronização de elementos como mobiliário e o núcleo sanitário com uso independente das peças sanitárias nos apartamentos de quartos simples e duplos. A esse núcleo duro, que iguala a oferta, se sobrepõe a diversidade ambiental do sistema de circulações, que assegura variedade espacial e ambiental nas áreas de convívio e evita a constituição de espaços excessivamente funcionalizados. A clara diferenciação entre os elementos permanentes e de natureza infraestrutural – a concentração dos equipamentos e instalações prediais – favorece o rearranjo interno das unidades a longo prazo. Nos apartamentos para PMR e PCR, o mesmo núcleo de infraestruturas se redesenha com sanitário totalmente adaptado e equipado, e o mobiliário e as portas internas se dimensionam para assegurar a plena mobilidade sem barreiras. Áreas de serviço e áreas para preparo e alimentação abrem-se generosamente para a face oeste, com vedações translúcidas que equilibram a farta iluminação e ventilação com a necessária privacidade dos espaços internos. A qualidade ambiental desses recintos voltados para a face oeste é assegurada pelo intervalo da circulação e pelo brise vertical que caracteriza os extensos pavilhões, atuando em conjunto com a circulação como um buffer que reduz a insolação e a transmissão de calor para o espaço interno da moradia.

Construção: industrialização e sustentabilidade A construção da Moradia Estudantil foi inteiramente pensada a partir da racionalização construtiva e da industrialização, objetivando a redução de custo e tempo de implantação, a redução de custo de manutenção e a redução do esforço do trabalhador no canteiro de obras e na operação do edifício ao longo de toda a sua vida útil. Para tanto, adotam-se os seguintes materiais, técnicas e processos construtivos: – todo o agenciamento do chão se faz com concreto armado moldado in loco nas contenções e nas lajes protendidas, sempre que possível deixado aparente; – estrutura principal do sistema modular em perfis metálicos leves como pequenos vãos, compatíveis com a escala dos espaços internos, permitindo uma montagem econômica e rápida, com baixo impacto; – nos pavilhões, lajes treliçadas pré-fabricadas de fácil montagem e execução, com nivelamento a laser, polimento e acabamento contínuo com pintura de base epóxi, reduzindo o peso total da construção, o transporte de materiais e o esforço do trabalhador em todo o processo de montagem (6); – módulos hidráulicos industrializados, produzidos com todas as instalações prediais e acabamentos, com dimensões que permitem o transporte de 3 módulos por carreta. Para sua instalação, bem como para a montagem de todos os elementos da estrutura metálica, prevê-se a utilização de mini-gruas com lanças de 15 metros e capacidade de içamento de até 1,5 toneladas, dispensando a utilização de guindastes, cujo acesso ao canteiro de obras seria dificultado pelo agenciamento da topografia em platôs, e cuja circulação periférica aos pavilhões minimizar impacto nas áreas de preservação permanente (7); – vedações e caixilhos modulados, integrados a armários externos em concreto pré-moldado, cujo içamento e montagem pode se realizar concomitantemente à instalação dos núcleos sanitários; – divisões internas das unidades em gesso acartonado e marcenaria integrada, a permitir reorganizações internas das unidades e integração entre unidades (8); – escadas metálicas padronizadas, cuja montagem se faria com o mesmo equipamento; – brises industrializados leves, de fácil instalação, com fixação direta na estrutura metálica, de piso a piso; – reservatórios industrializados para água potável, água quente – aquecimento solar – e água de reuso e reserva de incêndio.