Parque das Aves

Arquitetos Alexandre Brasil, André Luiz Prado, Bruno Santa Cecília e Carlos Alberto Maciel | Sebastião Figueiredo (consultor)
Colaboração Bruno Berg e Fernanda Dubal
Local Brasília, DF, Brasil
Projeto 2005

O projeto para o Parque das Aves parte da consideração da busca de um equilíbrio entre a necessidade de preservação, conservação e recomposição natural da gleba, e a definição de suportes à ocupação humana. Propõe, para isso, a implantação de infra-estruturas de baixíssimo impacto, com altíssimo grau de reversibilidade da área a um estado próximo do natural, se necessário, com estratégia de reflorestamento das áreas degradadas e manutenção das áreas preservadas que favoreça a configuração de uma nova paisagem, acentuando as peculiaridades que estimulem a regeneração do conjunto como uma importante reserva ambiental, suporte para a fauna e a flora do cerrado.

A CONSTRUÇÃO DA PAISAGEM

A proposta de intervenção parte do reconhecimento das estruturas de espaço pré-existentes – a geometria da gleba e sua bipartição, a existência de áreas modificadas pela ação antrópica, a caracterização das massas verdes existentes e sua necessária ampliação e consolidação como cerrado típico – e, por outro lado, da necessária coexistência equilibrada entre a preservação ecológica e o uso público a que se destina o parque, tendo em vista sua caracterização como Parque Distrital Recreativo.

Para isso, foram diagnosticados as seguintes áreas com potenciais de apropriação distintos:

– a porção central do parque, mais preservada em seu estado natural, com maior densidade de indivíduos arbóreos característicos do Cerrado, inclusive com espécies tombadas. Em virtude de seu maior potencial para definição de área de preservação, consolidação do cerrado e abrigo da fauna local, propõe-se a sua integral preservação de modo a assegurar a mínima intervenção antrópica, limitada à definição de trilhas interpretativas com circulação exclusiva de pedestres, bacias para conformação de bebedouros para as aves, e a implementação de  plataformas para observação de aves visando a subsidiar pesquisas, sempre próximas aos bebedouros. Nestas áreas, a fim de ampliar a atração da fauna local, propõe-se o reforço da arborização com espécies vegetais típicas do cerrado que apresentem maior produção frutífera.

– a porção norte do parque, objeto de ação antrópica com total eliminação da vegetação de porte arbóreo e de forração, apresentando solo exposto. Visando sua recuperação, propõe-se a recomposição vegetal por reflorestamento misto heterogêneo, usualmente destinado à recomposição vegetal de áreas degradadas de preservação permanente. Associada ao reflorestamento, propõe-se implantar aí a porção norte da Avenida Ecológica, de modo a fazer coincidir as intervenções mais significativas com as áreas já degradadas.

– A porção oeste do parque, definida pelo prolongamento da gleba com menor extensão no sentido norte-sul, com maior presença de intervenções antrópicas resultantes da ocupação pelo canteiro de obras do Metrô. Em virtude da maior descaracterização de sua conformação natural, propõe-se concentrar aí todas as partes edificadas, estacionamentos e praças com tratamento paisagístico previstas no programa, estabelecendo uma clara delimitação entre as áreas preservadas e os suportes para a apropriação humana do parque. Com isso, resguarda-se a tranqüilidade e o caráter natural da grande porção verde, atende-se ao programa através da criação dos espaços necessários para caracterizar o uso público do parque, e evita-se a pulverização de construções ao longo do território, o que comprometeria o equilíbrio ecológico e ambiental da maior parcela da área. A ocupação desta área pode ser feita em etapa, coexistindo com a retirada gradual do canteiro de obras do Metrô.

– A gleba fracionada a extremo oeste, separada da maior parcela do parque por via pública, em estado parte preservada, constituindo massa verde de porte arbóreo significativo, e parte modificada significativamente pela implantação do canteiro de obras do Metrô. Nesta área, por sua maior acessibilidade e independência física e funcional em relação à área principal do parque, propõe-se implementar, nas áreas já modificadas pela ação antrópica, suportes para atividades exportivas  quadras, pérgola e vestiários  como parte integrante do Circuito Saúde. Estes equipamentos, por seu caráter modular, podem ser implantados gradativamente, permitindo, se for o caso, a manutenção parcial dos canteiros de obras do Metrô também nesta área. Na área preservada, por seu porte arbóreo e por sua independência funcional e descontinuidade física em relação às grandes massas verdes internas ao parque, propõe-se a implementação de manejo específico que a caracterize como uma agrofloresta demonstrativa, funcionando “como material de estudo de campo para as atividades educativas, demonstrando a viabilidade ecológica e econômica desta técnica”, como recomenda o Termo de Referência, p. 7. Junto à agrofloresta, associam-se áreas para horticultura orgânica e canteiros para cultivo de ervas medicinais.

– As franjas periféricas do parque, cuja demarcação se faz através da definição de uma seqüência que funciona como proteção e transição entre as áreas urbanizadas e naturais. Para isso, propõe-se a implementação de aceiro com 8 metros de largura ao redor de toda a poligonal do parque, assegurando o isolamento que trará a necessária proteção em caso de incêndios florestais. Aproveitando a abertura visual para as áreas urbanas, favorecendo a manutenção das áreas verdes e evitando interferências em sua conformação natural, reforçando o isolamento e a segurança do parque e configurando percurso com grande extensão que permite a realização de caminhadas, associadas ao Circuito Saúde, propõe-se a implementação de via perimetral com pavimentação asfáltica lisa, adequada tanto para a caminhada como para o ciclismo, com 6 metros de largura total, fracionada em duas faixas independentes separadas por faixa gramada, com 3 e 2 metros, para ciclismo e caminhada, respectivamente. Essa conformação permite o trânsito eventual de veículos de manutenção, com manobra pelo aceiro. Paralelo a este percurso, propõe-se o reforço da vegetação de porte arbóreo, com espécies típicas do cerrado, dando preferência àquelas que apresentam florações com maior efeito estético de modo a reeditar a imagem do Parque das Aves, para quem dele se aproxima, identificando-o com variações cromáticas permanentes que venham a reforçar a beleza e a vitalidade do Cerrado Brasileiro. Por sua grande horizontalidade, essa expressão paisagística das florações das massas perimetrais vem ampliar a contribuição do Parque para a caracterização da imagem urbana do setor.

O PAISAGISMO: NATUREZA E CULTURA

O paisagismo proposto para o Parque das Aves parte da sobreposição de dois padrões, entendidos como manifestações distintas que resultam da sobreposições controladas entre natureza e cultura: de um lado, com forte apelo ecológico e preservacionista, a recomposição e o reforço das estruturas naturais de vegetação vêem assegurar a biodiversidade e o uso controlado das áreas reflorestadas, contribuindo para a definição de um ecossistema o mais próximo possível do natural, com o mínimo de intervenção antrópica; de outro lado, com grande capacidade de abrigar as atividades mais impactantes decorrentes do uso público do parque, amortecendo seus efeitos nas áreas de preservação pela sua correta disposição e concentração na franja sul, já consideravelmente modificada pela implantação dos canteiros de obra do Metrô, um paisagismo com ordenação geométrica permite ordenar os fluxos, concentrar os estacionamentos impedindo o trânsito automotivo nas áreas de preservação, reunir atividades atratoras de público e liberar a maior porção do parque em sua conformação mais próxima do natural. Essa distinção entre tipos de ordenação amplia didaticamente a percepção das possibilidades de uso e restrições de atividades conforme os diversos níveis de preservação das áreas do parque. No sentido oeste-leste verifica-se uma gradação entre espaços destinados às atividades humanas – esporte, recreação, lazer, cultura, educação ambiental – e as áreas de preservação da fauna e flora local, através da disposição periférica dos percursos principais que permitem a realização de caminhadas, complementarmente ao Circuito Saúde, e definem interligações possíveis entre a estação de Metrô e o Zoológico: a Avenida Ecológica, e a Via Perimetral, para manutenção e lazer. A disposição destes dois elementos de circulação, com vias segregadas para pedestres e ciclistas, evita o fracionamento da grande massa verde da porção central da gleba, com grande número de espécies tombadas e com indivíduos arbóreos de maior porte. A Avenida Ecológica percorre, no sentido Norte-Sul, o conjunto edificado, passando sob a pérgola que define uma praça com micro-clima ameno, tornando mais agradável o percurso de interligação entre os dois equipamentos urbanos do entorno. Esse percurso favorece uma maior interação social entre os usuários do parque e os transeuntes que utilizarem a Avenida Ecológica como atalho.

Um grande boulevard com pavimentação permeável e semi-permeável, de desenhos geométricos, promove a integração física e visual entre as duas partes fracionadas do terreno, definindo um percurso linear que unifica as áreas para atividades esportivas, na pequena gleba fracionada do parque, com o conjunto edificado central, que concentra todos os espaços de apoio e de uso público previstos no programa. Acompanham o boulevard percursos com pavimentação lisa para pedestres e ciclistas, e um grande espelho d’água com tanques para cultivo de espécies vegetais palustres a complementar o paisagismo.  Conformado de um dos lados pela curva de nível 1054 e de outro por pequeno talude que se eleva paralelamente ao boulevard de integração, o espelho d’água é alimentado pelas águas provenientes das chuvas reunidas parcialmente pela drenagem superficial do terreno. Para reforçar seu caráter de acumulação, foi definido o Caminho das Águas, uma malha regular espaçada em 100 metros, que edita percursos regulares em forma de bacias,  executadas em seixo rolado argamassado, que conduz toda a água proveniente da drenagem superficial do parque para pequenos tanques-bebedouros para as aves, localizados na interseção de cada linha da malha, e destes, por gravidade, para um grande tanque acumulador na cota mais baixa do parque. Deste tanque, uma pequena bomba de recalque conduz as águas de chuva para outro tanque em cota elevada, junto às instalações sanitárias na Avenida Ecológica, que tem por objetivo realimentar os bebedouros nos períodos secos. O tanque inferior também realimenta o grande espelho d’água junto ao boulevard, assegurando sua perenidade mesmo nos períodos mais secos. Para este espelho são também revertidas integralmente as águas de chuva captadas nas coberturas das edificações do parque, com condução aparente a fim de reforçar o caráter didático da conservação dos recursos hídricos e da diversidade do ciclo hidrológico do parque.

A fim de reforçar a variação na paisagem que a forte diferença entre as estações de seca e de chuva impõe, o grande espelho d’água está projetado para potencializar paisagisticamente a variação sazonal do NA (nível d’água). Para isso, a sua  calha variável, com pequena inclinação, configura, nas épocas de chuvas, um espelho extenso em que predomina a água, nivelada com os tanques de geometria variada, reeditando o mesmo padrão gráfico do piso do grande boulevard. Nas épocas secas, o nível d’água se rebaixará naturalmente, e a superfície de água se reduzirá ao trecho central. Neste caso, os tanques de cultivo de vegetação palustre se sobressairão, tendo sua saturação de umidade favorecida pela irrigação por capilaridade, junto à base alagada do espelho. Nas margens úmidas, surgirá naturalmente vegetação de forração temporária que reforçará a transformação na paisagem em função do câmbio de estação e do regime de chuvas. Para assegurar a contenção das águas e essa conformação variada de sua margem, toda a bacia deve ser impermeabilizada através da utilização de uma camada de lona revestida com argila branca, tipo tabatinga, cuja camada, razoavelmente espessa de modo a favorecer o crescimento de vegetação, reproduz o ambiente favorável para a proliferação da micro-flora aquática. A perenidade do trecho central do espelho d’água é assegurada pela reserva hídrica acumulada das chuvas e, em casos críticos de anos com escassez de chuvas, por abastecimento por poço artesiano. Essa alternativa, ao evitar a utilização da água tratada do sistema público de abastecimento para a perenidade do espelho, viabiliza a preservação da micro-flora e micro-fauna que se desenvolverá no meio aquático, e reduz significativamente os custos de manutenção do parque a médio prazo.

EDIFICAÇÕES: SUSTENTABILIDADE, REVERSIBILIDADE E QUALIFICAÇÃO AMBIENTAL

Para a definição dos espaços edificados que abrigam as atividades de apoio ao lazer, cultura e educação do parque, procurou-se adotar princípios de projeto que assegurem a máxima adequação da intervenção ao lugar, minimizando impactos decorrentes tanto da sua implantação quanto de seu uso e manutenção. Para isso, a adoção de princípio construtivo semi-industrializado, baseado na lógica de montagem a seco, permite a implantação de canteiro de obras de baixíssimo impacto. Associada à utilização de material ecologicamente correto  estruturas em aço, com alta capacidade de reciclagem e reuso, e vedações em madeira certificada de reflorestamento, com acabamento laminado e colado, quando necessário, a lógica de montagem a seco permite, se necessário, a remoção ou relocação de partes ou do todo. A lógica modular adotada permite ainda que se implante em etapas, além de favorecer o crescimento de qualquer espaço conforme a mudança das demandas de uso com o passar do tempo, sem comprometer a lógica construtiva e o princípio geral de ordenação do parque.

A fim de configurar transição bem marcada entre as áreas abertas e as edificações, com caracterização de micro-clima sombreado e ameno, propõe-se a construção de extensa pérgola em Madeira Laminada Colada associada a superestrutura em perfis metálicos laminados, sob a qual se dispõem, com construções independentes, os blocos que abrigam as atividades. Aqueles de natureza operacional, se dispõem a oeste, sendo que a administração, com recepção que funciona como central geral de informação do parque, abrigam o primeiro bloco, próximo ao percurso de entrada através do grande boulevard, desde os estacionamentos. Na extremidade oposta, a lanchonete, aberta ao público, compartilha os espaços de apoio e carga e descarga com a área de refeitório e vestiário para os funcionários, contígua ao galpão de serviços, que se abre para a via de serviços, permitindo integrar-se com os fluxos de manutenção através do aceiro perimetral, sem contudo definir construção isolada.

A leste, todos os espaços de uso público relacionados à cultura e educação  Museu de Taxidermia, Biblioteca, Espaço Energia, Auditório e salas para educação ambiental  se abrem ora para o percurso interno da pérgola, ora para a área de mata do parque. Essa disposição reforça o percurso central sombreado, exclusivo para pedestres, que funciona como extensão aberta dos espaços funcionais. Entre os blocos projetados, intervalos sombreados permitem a extensão de paisagismo ornamental que reforça a qualificação ambiental e o micro-clima proposto. Nesta mesma lógica, o espelho d’água adentra a área de sombra, passa junto à lanchonete elevada, como as demais construções, em palafitas metálicas, de modo a reduzir as intervenções no terreno e compatibilizar a implantação dos blocos com o aclive suave da topografia.

Em ambos os lados, a extensão significativa da pérgola em relação à localização dos blocos reforça a proteção solar e reduzem significativamente a incidência sobre os espaços de trabalho. A elevação da pérgola favorece ainda o amortecimento da transmissão de calor para os espaços interiores, enquanto o intervalo entre blocos evita a configuração de barreira física e visual entre o boulevard de chegada e as áreas de mata.

Complementam o conjunto edificado duas pérgolas de apoio ao Espaço Saúde, na porção a extremo oeste, configurando espaço de sombra para os atletas e usuários das quadras esportivas, e abrigando sob sua sombra, com os mesmos princípios de ordenação do conjunto principal, bloco com vestiários, equipamentos de ginástica e pequeno galpão de apoio às áreas de produção da Agrofloresta demonstrativa, da horticultura e dos canteiros de ervas medicinais.

Por último, ao longo da Avenida Ecológica, em seus dois pontos de inflexão, conjuntos de sanitários se dispõem por sob plataformas-mirantes, que configuram pequenas praças a conformar área para descanso e intervalo das caminhadas.