Avenida Goiás

Arquitetos Alexandre Brasil, André Luiz Prado, Carlos Alberto Maciel e Danilo Matoso
Local Goiânia, GO, Brasil
Projeto 2000

devolvendo a cidade a seus habitantes

O conjunto objeto desta proposta se constitui de três partes de caráter notadamente diferenciadas:  a primeira, a praça Cívica, um espaço de permanência com características marcantes de lugar; a segunda, a praça dos Trabalhadores, que caracteriza um dos últimos e certamente o mais importante vazio urbano do setor central, com grande potencial de articulação das diversas conexões urbanas entre as partes da cidade; e a terceira, o eixo da Avenida Goiás, com um acentuado sentido de percurso, promovendo a ligação entre as duas praças. Todo o conjunto se articula em torno de dois pontos focais que finalizam a perspectiva da Goiás: de um lado, o Palácio das Esmeraldas, centro do poder estadual erigido na praça Cívica, e de outro a Estação Ferroviária, na praça dos Trabalhadores. Tais características se confirmam pelo paisagismo existente: na praça Cívica, as grandes árvores perimetrais – Ficus da implantação inicial do núcleo urbano – conferem o necessário fechamento ao lugar, enquanto as palmeiras do eixO da Goiásreforçam sua vocação de caminho, e a grande abertura visual confere à praça dos Trabalhadores características de esplanada.

Entendendo essa característica de elemento de ligação entre as praças Cívica e dos Trabalhadores que a Avenida Goiás configura, buscamos considerá-la como parte integrante do grande conjunto urbano que reúne os três objetos do concurso, evitando uma excessiva compartimentação do objeto analisado e conseqüentemente do projeto proposto, o que não contribuiria para reforçar a unidade que este importante núcleo urbano inicial apresenta. O estudo para o redesenho da Avenida Goiás se fundamenta na constatação da necessidade de uma ampla requalificação dos espaços públicos da cidade. Buscando recuperar a importância da cidade e de sua arquitetura como instrumentos que contribuam para trazer qualidade de vida a seus habitantes, nosso projeto para a Avenida Goiás se fundamenta nos seguintes aspectos:

1. O cuidadoso redesenho urbano, que reforce a importância do pedestre e minimize os conflitos pedestre x automóvel, a definir os suportes necessários ao uso saudável e equilibrado do espaço urbano;
2. A reproposição das possibilidades de ocupação e uso do solo, de modo a ampliar a presença de cidadãos durante todo o dia e especialmente à noite e nos dias feriados, de modo a tornar o centro mais habitado e, portanto, a propiciar maior segurança para os cidadãos;
3. A criação de equipamentos urbanos que promovam o uso mais intenso do canteiro central da avenida como um grande equipamento de lazer para os cidadãos. Tais equipamentos são propostos de modo integrado aos equipamentos de apoio estacionamentos, sanitários públicos e de transporte o metrô, já proposto pela administração estadual, e o transporte local entre as praças Cívica e dos Trabalhadores.
4. A potencialização da ocupação das quadras lindeiras à avenida Goiás, inclusive das vielas e meios de quadra atualmente utilizadas como acessos de serviço, com atividades que contribuam para o uso público. Essa estratégia tem por objetivo o aumento da presença de pedestres especialmente nos períodos de maior esvaziamento do setor central, através de incentivos fiscais a atividades formais de lazer e cultura, associadas a uma maior ocupação das plantas superiores dos edifícios com o uso residencial.

5. A diferenciação clara de três trechos com características relativas a uso e ocupação do solo distintas, enfatizando aproveitamentos diferenciados do solo em função da maior ou menor densidade que corresponde à diferença entre a área próxima à praça Cívica e junto ao Bairro Popular, respectivamente.

Esse projeto busca recuperar a relevância do conjunto para a cidade a partir do redesenho urbano da área, associando modificações no traçado viário à redefinição de usos a partir da identificação de atividades/acontecimentos na circunvizinhança que abram novas possibilidades de apropriação do espaço público.

SOBRE O REDESENHO DO TRECHO EM QUESTÃO

O resgate da importância do pedestre na cidade

A proposta de redesenho busca visualizar e  potencializar características existentes no conjunto, enfatizando as diferenças entre as três partes e, ao mesmo tempo, possibilitando uma melhor articulação entre elas.

Um dos aspectos preponderantes na definição do novo traçado urbano proposto foi a intensa valorização do pedestre, através da criação de percursos que permitam uma fruição integral do conjunto e de lugares de descanso e permanência prolongada.

Para isso, buscamos diferenciar os nós que os cruzamentos da Avenida Goiás com as demais ruas e avenidas configuram, através da utilização de procedimentos de “traffic calming”, que modifica a percepção de quem passa pela área através da alteração da pavimentação, reduzindo a velocidade dos automóveis e minimizando os conflitos desses com os pedestres.

A fim de permitir uma continuidade do percurso do pedestre ao longo do eixo do passeio central, definimos duas estratégias distintas: a primeira, de menor impacto e de implantação mais imediata, faz uso de um outro recurso de “traffic calming”, elevando e diferenciando a pavimentação na interseção do passeio com a via pública transversal, a enfatizar a prevalência do trânsito de pedestres; a segunda, mais impactante e definidora do grande percurso que o passeio central pode configurar, busca apartar o espaço do pedestre do trânsito congestionado em três diferentes pontos: nas interseções com a praça Cívica, com a avenida Anhangüera e com a avenida Paranaíba. Nesses trechos, em virtude da futura presença de estações do Metrô, o passeio central promove uma suave descida em rampa que mergulha por sob a via transversal, criando uma praça rebaixada e coberta com comércio e serviços rápidos, que promove as necessárias transições com os equipamentos urbanos propostos: estações do metrô e estacionamentos. Esse rebaiXo do percurso nas interseções principais integra o novo meio de transporte ao espaço público e reforça a prevalência do pedestre no setor central.

A valorização do pedestre reforça a modificação pretendida em relação ao Transporte coletivo, tirando o trânsito de ônibus da avenida e tranferindo-o para um anel primário que preserva o núcleo urbano inicial. Como alternativa para o transporte local, propomos a implantação de uma linha de ônibus panorâmico de dois andares interligando a praça Cívica à Praça dos Trabalhadores, com paradas ao longo da Avenida Goiás que terão um abrigo especialmente desenhado para compor o conjunto de mobiliário urbano da avenida.
Outro importante aspecto da intervenção que parte do entendimento da estrutura urbana existente busca transformar o uso das vielas e vazios nos meios das quadras, destinando parte de sua área para acesso exclusivo de pedestres, e incentivando usos noturnos de lazer, especialmente restaurantes diversos. Essa recuperação do uso dos vazios internos das quadras busca reforçar sua caracterização como um recinto independente do ruído e do ritmo apressado do grande passeio da avenida, enfatizando sua escala diferenciada e sua característica de lugar, em contraposição ao percurso que a avenida configura. Tenta ainda integrar os diversos elementos que compõem o espaço urbano da avenida e sua circunvizinhança em seqüências expressivas de espaços, definindo, através da pavimentação, ligações, conexões e continuidades que potencializem o uso público, variado e múltiplo do espaço urbano, ao mesmo tempo em que diferenciam sutilmente as partes diversas que constituem o todo.

Continuidade e integração: a ciclovia, os estacionamentos e estações do metrô

A valorização do pedestre e a criação de espaços de uso público vinculados a atividades de lazer, cívicas e culturais contribuem para a preservação dos elementos de importância histórica e artística do sítio. Uma atitude corriqueira em centros urbanos europeus é o fechamento dos centros históricos ao tráfego de veículos. O que propomos é uma atitude menos radical, que concilia o pedestre e o veículo, a partir da diminuição da largura das vias, permitida pela diminuição do tráfego de automóveis e ônibus proposto pelo novo plano de vias, associada à criação de estacionamentos ao nível do subsolo. A possibilidade da criação do grande percurso no eixo existente repete um fato urbano notório que é a Rambla de Barcelona: um grande passeio central em que o pedestre é o principal personagem neste acontecimento urbano.

Associada à valorização do percurso do pedestre, propomos a criação de uma ciclovia ao longo da avenida, a permitir um percurso contínuo desde o bosque dos Buritis, passando pela praça Cívica e conduzindo até a praça dos Trabalhadores. Essa desejada continuidade entre espaços urbanos complementares, associada a topografia favorável que a cidade apresenta, reforça a importância da criação dessa possibilidade alternativa de transporte não poluente que a ciclovia configura.

Nas passagens de pedestres por sob as vias transversais de maior tráfego de veículos, associam pequenas lojas para comércios e serviços rápidos, adequados à característica de itinerância do passeio público, aos acessos aos equipamentos complementares de infra-estrutura, como os estacionamentos em subsolo e as estações do metrô norte-sul proposto pelo Governo Estadual. A integração e continuidade entre esses diversos equipamentos urbanos complementares asseguram a diversidade da vida urbana, associando usos e acontecimentos diversos que ampliam a segurança pública na medida em que promovem uma ocupação mais heterogênea e mais permanente do espaço urbano.

SOBRE OS EQUIPAMENTOS URBANOS PROPOSTOS

Os equipamentos propostos associam um novo mobiliário urbano, coerente com os novos usos propostos – bancos, lixeiras, iluminação baixa – a intervenções de maior porte, que são integradas à infra-estrutura prevista para o Metrô.

Quiosques metálicos de maior porte localizados nas extremidades dos passeios nas travessias subterrâneas servem para atividades de comércio que funcionem como apoio ao lazer, como lanchonetes, bares típicos de cerveja e espetinho, pamonharia, sorveteria, e outros. Esses quiosques incorporam em seu desenho espaço destinado à instalação de telefones públicos e lixeiras especiais, integrando equipamentos urbanos de modo a minimizar interferências excessivas na paisagem urbana, e ao mesmo tempo respondendo à maior demanda de recipientes para o grande volume de resíduos que resulta da atividade dos próprios quiosques.

Nas extremidades de calçada em que a travessia acontece ao nível da rua, patamares elevados acontecem dos dois lados do percurso principal de pedestres, com quiosques menores, também metálicos, abrigando usos diversos que alternam costumes próprios da cidade e da região a outros usos mais genéricos, como bancas de revistas, flores e outros. Além de delimitar área para mesas e cadeiras, apropriada pela sua localização em sombra, esses patamares funcionam como bancos, e ainda definem em uma de suas extremidades uma pequena plataforma elevada, que funciona como palco para performances e apresentações de bandas e artistas de rua.

SOBRE O PAISAGISMO

As seguintes premissas determinaram o paisagismo proposto para a Avenida Goiás:
1. O entendimento do paisagismo como elemento gerador de sombra, e portanto de espaços para permanência, a responder ao rigor do clima quente da cidade e a permitir maior possibilidade de apropriação do espaço público pelos transeuntes;
2. O respeito ao paisagismo original da avenida, projetado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, revelando didaticamente a influência das cidades-jardim inglesas na definição paisagística da cidade de Goiânia. A fim de enfatizar a importância da arborização como elemento definidor do caráter da proposta urbanística nicial, buscamos preservar e recompor os trechos danificados com as mesmas espécies e a partir do mesmo princípio de composição;
3. O reconhecimento da prevalência do pedestre, evitando o uso de canteiros com forrações baixas ou vegetação de porte arbustivo, de difícil manutenção em áreas com grande afluência de pessoas, e ao mesmo tempo, liberando o passeio público para o grande afluxo de pedestres;
4. Por último, a adoção de materiais para a pavimentação das calçadas que sejam de fácil manutenção e grande resistência, não derrapantes e de alta relação custo/benefício, como o tijolo maciço assentado a cutelo e o concreto colorido, com paginações em granito serrado, a fim de permitir um uso sem restrições e barreiras, e ao mesmo tempo, contribuir para a expressão do espaço urbano como definidor da imagem da cidade.

SOBRE A ILUMINAÇÃO URBANA

Para a iluminação, propomos quatro diferentes sistemas, que, associados, contribuem para reforçar as distintas características das partes. Por um lado, a proposta de iluminação tem por objetivo a qualificação dos espaços públicos para o uso, propiciando maior segurança para os transeuntes. Por outro lado, contribui para ordenar a paisagem urbana, destacando e valorizando elementos importantes na composição da imagem urbana, como o paisagismo original da avenida e construções de importância histórica e arquitetônica.

A iluminação pública se fará, portanto, através dos seguintes elementos:
1. Postes altos nas calçadas laterais com iluminação em vapor metálico, diferenciando-a das demais avenidas, que utilizam lâmpadas de vapor de sódio, amarela, com o objetivo de preservar a iluminação geral da via pública, associada a iluminação mais baixa direcionada para a calçada;
2. Iluminação baixa direcionada para o piso em toda a grande calçada central, nas rampas e nas praças cobertas, eliminando a insegurança que a penumbra provocada pela arborização gera;
3. Instalação de projetores embutidos no piso com lâmpadas de vapor metálico que ressaltam a cor verde da vegetação direcionadas para as copas das árvores e das palmeiras, o que amplia a iluminação geral pelo rebatimento da luz nas árvores, a fim de ressaltar a qualidade do paisagismo de porte arbóreo da avenida;
4. Por último, projetores especiais com lâmpadas de vapor metálico instalados no piso ou em locais específicos conforme o caso, iluminando edifícios e monumentos significativos para a memória histórica da cidade, como o coreto, o relógio e os edifícios tombados como patrimônio histórico.

SOBRE AS DIRETRIZES PARA REGULAMENTAÇÃO DAS INTERFERÊNCIAS NA PAISAGEM URBANA: ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS DE FACHADAS, ELEMENTOS DE INFRAESTRUTURA, ELEMENTOS DE SINALIZAÇÃO VIÁRIA, TURÍSTICA E INFORMATIVA

A paisagem urbana é resultado das diversas intervenções humanas no vazio das ruas, praças e avenidas. A sobreposição descontrolada de informações de naturezas diversas contribui apenas para amplificar o caos e a desordem da imagem urbana e compromete a fruição e o uso saudável do espaço público, pois os elementos que constituem a cidade perdem sua capacidade de ordenar a vida urbana devido ao excesso de informação, e a expressão arquitetônica dos edifícios deixa de contribuir para a caracterização da paisagem urbana. Dentre as diversas interferências que exigem normatização e regulamentação, listamos as seguintes:
1. Padronização de dimensões máximas de letreiros e anúncios publicitários, relacionados com o comércio estabelecido no local, localizando-os sob as
marquises e sobre as portas dos estabelecimentos; quando necessária a utilização do espaço sobre as marquises, as placas devem ser preferencialmente de material vazado, que permita a visualização de eventuais elementos que se encontrem no fundo, e não devem ter altura maior do que 80 centímetros. Deve-se ainda evitar luminosos intermitentes, tipo pisca-pisca.
2. No caso de sobreposição de placas, letreiros ou anúncios em edifícios tombados legalmente como patrimônio histórico ou considerados de interesse histórico, deverá ser submetido projeto de comunicação visual a órgão competente em patrimônio histórico da Prefeitura Municipal a fim de harmonizá-los com as fachadas dos edifícios que os suportam, evitando a sobreposição de grandes fachadas publicitárias aos objetos arquitetônicos de importância para a memória da cidade;
3. Proibição da instalação de equipamentos publicitários tipo “outdoor’s” nas faces de quadra da avenida Goiás;
4. Substituição de todas as placas de informação geral e de trânsito por um padrão de suporte e comunicação visual desenvolvido especialmente para o conjunto urbano definido pelo Setor Central, acrescentando placas com informações de natureza turística e que façam referência à localização dos elementos de importância para a memória histórica da cidade. A implantação de todo o conjunto de sinalização deverá ser implementada em harmonia com o desenho urbano proposto para a área.
5. Por último, todos os elementos de infra-estrutura urbana cabeamento de energia e seus transformadores, cabeamento de telefonia, televisão, semáforos, e outros que modificam significativamente a caracterização da paisagem urbana devem ser transferidos para galerias subterrâneas sob as calçadas laterais da avenida.

SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DO COMERCIO AMBULANTE

Conflito típico da sociedade contemporânea é a presença dos ambulantes e o conseqüente impacto da sua atividade no congestionamento dos percursos públicos de pedestre e no comércio varejista legal. As soluções que procuravam exportar os ambulantes para locais confinados e distantes se mostraram ineficientes, pois eles são atraídos exatamente pelos locais de fluxo incessante de pedestres.

A solução do problema dos ambulantes localizados na Avenida Goiás aponta para uma estratégia que associa iniciativas do poder público e de entidades como a Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia e a Associação Centro Vivo. A fim de buscar a inserção gradativa do ambulante no comércio formal, retirando-o da clandestinidade e respeitando o comerciante legalmente instalado que cumpre com suas obrigações sociais, propõe-se a implementação de uma incubadora de comércio e serviços, que propiciará ao ambulante a formação adequada e preparação para o comércio legal, incentivando e apoiando o ambulante na sua profissão. Para realizar a transição do comércio informal ao formal, os ambulantes serão deslocados da avenida para a praça dos Trabalhadores, tirando proveito do grande fluxo de transeuntes que seu caráter de conexão intermodal apresentará, e ocuparão um espaço específico, como um “camelódromo”, acrescido de espaços adequados para o ensino e formação profissional.

Outro espaço destinado aos ambulantes é o largo da avenida Paranaíba, que tem seu desenho alterado de modo a concentrar o tráfego de automóveis no centro, beneficiando o pedestre ao alargar a calçada lateral. Nesse novo calçadão, uma grande marquise abriga os ambulantes, e pode ser ainda apropriada por outros usos, na medida em que define uma cobertura flexível que reforça a linearidade desse grande espaço urbano.

A presença excessiva de ambulantes ao longo da via pública compromete a segurança e o conforto do transeunte, o que amplifica a degradação ambiental e da paisagem urbana. Sua transferência para local com grande potencial de venda e com infraestrutura adequada tanto para seu trabalho como para sua formação contribui por um lado para a melhoria da qualidade de vida dos próprios ambulantes; por outro lado, permite a requalificação ambiental do eixo urbano da avenida como espaço público, de lazer e de cultura para toda a População.

SOBRE DIRETRIZES DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO

Quanto à ocupação dos terrenos lindeiros à avenida Goiás, é desejável preservar a ausência de afastamentos, construindo as novas edificações no alinhamento das vias e unidas lateralmente às edificações vizinhas, preservando as restrições específicas quanto à habitabilidade – ventilação, iluminação, conforto termo-acústico -, de modo a preservar a continuidade dos volumes construídos e reforçar os limites que contribuem a diferenciar o eixo urbano da Avenida Goiás. Além disso, propõe-se a variação nas alturas do gabarito nas faces de quadra voltadas para a avenida em três diferentes trechos, a saber:

A) o estímulo a construções verticalizadas com até 12 pavimentos no trecho 1 (Praça Cívica-Anhangüera), que permite a caracterização efetiva do eixo urbano da avenida, e valoriza a perspectiva que tem seu ponto focal no Palácio das Esmeraldas, recuperando a importância do traçado original de Attílio Corrêa Lima.
b) a regulamentação de uma altura média de 8 pavimentos no trecho 2 (Anhangüera-Paranaíba), que promove uma gradação entre as duas alturas distintas nas extremidades da avenida, e ainda permite uma maior densidade.
c) limitação de altura das novas edificações no trecho 3 (Paranaíba-Trabalhadores) em quinze metros (térreo + 3 pavimentos), garantindo a preservação da densidade e da horizontalidade dominantes do tecido urbano adjacente, e evitando a valorização excessiva do solo neste trecho. Tal estratégia assegura a permanência dos atuais habitantes do bairro Popular e imediações, e evita uma indesejável transformação destes espaços pela atividade especulativa.

Em relação à ocupação dos fundos das mesmas quadras, propõe-se altura e densidade menores, igualmente variável conforme o trecho da avenida. Essa redução do gabarito busca uma harmonização da maior altura dos edifícios lindeiros à avenida em relação ao tecido urbano menos denso das quadras adjacentes, e ao mesmo tempo reforça a presença da Avenida Goiás como o eixo principal e dominante na estruturação do tecido urbano do setor central.
As alturas nos três trechos apontados são as seguintes:
a) trecho 1 e trecho 2 (praça Cívica/Anhangüera/Paranaíba): limitação de altura das novas edificações em quinze metros (térreo + 3 pavimentos).
b) trecho 3 (Paranaíba/Trabalhadores): limitação de altura das novas edificações em oito metros (térreo + 1 pavimento).

No que concerne à legislação de uso para todas as quadras indicadas, propõe-se restringir esse aproveitamento do solo ao uso misto – térreo comercial, restante residencial – para todas as quadras da área em questão. Para a regulamentação dos usos térreos das edificações novas e existentes, faz-se necessário estabelecer restrições e incentivos a usos determinados. Em relação aos incentivos, indicamos a necessidade da criação de isenções totais e parciais do IPTU para os imóveis lindeiros à avenida Goiás quando o usuário ou proprietário promover no seu imóvel ao nível térreo um uso que reforce o caráter público e de lazer do conjunto urbano. O incentivo proposto deve ser concedido desde que o imóvel e a atividade atendam aos seguintes requisitos:

A) tenha destinação compatível com as atividades listadas como potencialmente favoráveis, sendo a isenção total ou parcial conforme o uso proposto;
b) tenha horário de funcionamento diferenciado, atendendo no horário noturno no mínimo até às 22:00 horas, inclusive fins de semana e dias feriados;
c) tenha sua caracterização formal e tratamento de fachadas coerente com as diretrizes para regulamentação das interferências na paisagem urbana, no que se refere a anúncios publicitários e tratamento das fachadas;

Consideram-se potencialmente favoráveis as seguintes atividades:
lazer e cultura – cinemas, pequenas salas de espetáculo, museus, academias, galerias de arte: 100% de isenção de IPTU;
Institucionais – postos telefônicos, postos bancários, quiosques de apoio com funcionamento 24 horas: 70% de isenção de IPTU;
comércio de pequeno porte – tabacaria, joalheria, relojoaria, cine-foto-som, bombonière, livraria, brinquedos, quitandas, artesanato, floricultura, presentes: 70% de isenção de IPTU;
serviços de alimentação – cafés, bares, restaurantes, lanchonetes, sorveterias, pamonharias, quiosques de alimentação: 100% de isenção de IPTU.

Para os imóveis lindeiros aos demais trechos de ruas que compõem a área objeto do concurso – exceto aqueles que se localizam em esquina com a avenida Goiás – acrescentam-se usos que representam comércio e serviços de apoio à moradia, tais como: lavanderia, mercearias de pequeno porte, salão de beleza, sacolão (hortifrutigranjeiros), papelaria, locadoras de vídeo, farmácia e drogaria, padaria, com possibilidade de isenção de IPTU de 70%, desde que atendam aos requisitos apresentados acima.

As restrições visam a minimizar o abandono noturno da área central, acarretado pela ocupação estritamente comercial. Outro aspecto que compromete a habitabilidade das áreas centrais é o progressivo isolamento dos espaços internos em relação à rua, gerando uma autonomia de funcionamento especialmente em grandes centros comerciais, que evitam qualquer relação de continuidade com o tecido urbano adjacente. Em virtude disso,  consideramos desfavoráveis as seguintes atividades:

Institucionais de médio e grande porte – órgãos de previdência, entidades sindicais, entidades desportivas de grande porte, serviços de saúde, serviços de educação, serviços públicos;
Comércio – atacadistas, varejistas de médio e grande porte, depósitos, materiais de construção, supermercados,  armazéns, “shopping center’s”;
Serviços –  instituições de crédito, bancos, hotéis de grande porte, boites, casas noturnas e casas de espetáculo, oficinas, estacionamentos.indústrias de qualquer tipo.

Para os espaços comerciais a serem implantados nas praças rebaixadas, indicamos usos que configurem comércio e serviços rápidos, coerentes com o caráter de itinerância que é próprio deste tipo de espaço:
1. alimentação: lanchonetes, cafezinhos, sorveteria, pastelarias;
2. comércios: bancas de revistas, livraria, farmácia, floricultura, drogaria, música (cd/cassete), artesanato, casa lotérica;
serviços: chaveiro, sapateiro, xerox, revelação de foto, banco 24 horas.

Para os vazios nos meios de quadras e as vielas de acesso, indicamos usos nos pavimentos térreos dos edifícios voltados para esses espaços públicos que
configurem atividades comerciais relacionados ao lazer, que promovam permanência prolongada e ocupação noturna, a saber:
1. restaurantes típicos: pamonharia, casas de caldos, comida mineira, comidas típicas goianas (arroz com pequi, arroz de p. rica, empadão goiano);
2. cervejarias (cerveja e espetinho) e outros bares de permanência prolongada e funcionamento noturno;
3. restaurantes diversos: comida italiana, japonesa, espanhola, francesa, árabe, chinesa;
Outro aspecto que deverá receber incentivo na forma de redução parcial de IPTU é a criação, nos terrenos lindeiros aos vazios de centro de quadra, de galerias de lojas que promovam uma conexão alternativa de pedestres entre a avenida Goiás e o vazio, e/ou entre este e a rua paralela à Goiás, ampliando as possibilidades de percurso no setor central.

SOBRE A GESTÃO E VIABILIDADE DAS PROPOSTAS

Algumas estratégias de gestão permitem a viabilização das propostas apresentadas nesse projeto, a saber:
1. Para viabilizar as intervenções edificadas na paisagem urbana, como os estacionamentos subterrâneos, os quiosques ao longo da avenida e as praças de comércio nas interseções, propõe-se a utilização do instrumento de concessão do uso do espaço público à iniciativa privada, autorizando a construção  do equipamento conforme as normas e o projeto executivo aprovado pelo Poder Público. O imóvel resultante do investimento será propriedade da Prefeitura, que permite ao concessionário sua exploração por um período a ser negociado conforme a relação custo de implantação x retorno do investimento imobilizado. Após o período de concessão, o direito de exploração retorna à Prefeitura, que pode renegociar nova concessão. As praças rebaixadas são comercialmente atraentes, por apresentarem uma organização do espaço que reproduz a estratégia dos shopping center’s, ao alternarem uma alimentação diversificada de público, promovida pelas rampas que continuam o percurso de pedestre, à criação de elementos atratores de público, denominados “âncoras” – o metrô e os estacionamentos.
2. Para essas praças rebaixadas nas interseções, cabe ainda a parceria com o Governo Estadual, em virtude da integração de tais praças com as estações do Metrô planejado para a cidade.
3. Para a requalificação da paisagem urbana no que diz respeito à normatização de publicidade e recuperação das fachadas das faces das quadras lindeiras à avenida Goiás, propõe-se o instrumento de parceria com a iniciativa privada, como, por exemplo, o patrocínio de fabricantes de tintas e revestimentos.
4. Para a requalificação das vielas e vazios internos de quadras, propõe-se também a parceria com a iniciativa privada, incentivando os próprios comerciantes que decidissem pela instalação de restaurantes e equipamentos nessas áreas com isenção integral de IPTU por período a ser negociado, em contrapartida à reforma do trecho adjacente da viela de acordo com projeto designado pela Prefeitura Municipal. Este espaço, convertido ao uso de pedestre, passaria a ser utilizado como extensão aberta dos espaços internos dos restaurantes, funcionando como pequenas praças de alimentação e lazer;
5. Por último, a requalificação urbana das calçadas e do passeio central da avenida deve ser realizada em parceria com grandes empresas goianas, que, firmando contrato de adoção dos espaços públicos da cidade, promoverão a reforma e a posterior manutenção dos trechos da avenida adotados, garantindo sua limpeza e conservação. Em contrapartida, as empresas terão espaços para divulgação publicitária desse gesto de gentileza para a cidade, e ainda poderão fazer uso de Leis de Incentivo à Cultura em todos os âmbitos – municipal, estadual e federal -, na medida em que estabeleçam um projeto de implementação e gestão de atividades culturais nessa área para a população da cidade.

CONCLUSÃO

A busca constante de uma unidade na estruturação do espaço urbano é elemento norteador do projeto. A visualização de uma estrutura existente e a preservação e valorização de elementos históricos de valor simbólico para a população, associadas a um desenho urbano de natureza inovadora no contexto da cidade, garantem a necessária coerência da proposta com relação à cidade, seu povo e sua memória. Muito relevante é a preocupação constante com a viabilidade técnico-econômica, evitando propostas onerosas e inviáveis e priorizando interferências cuja execução apresente sempre uma adequada relação custo/benefício, ora devido à simplicidade da intervenção, ora pela sua associação a infra-estruturas a serem instaladas, complementando-as e potencializando seus usos diversos, como é o caso do metrô.

Enfim, o projeto repropõe o existente, conferindo novos significados aos espaços, em todos os níveis – do macro ao micro -, ou seja, ao traçado urbano original, recuperando seu papel estruturante de toda a área do setor central, aos diversos lugares e percursos existentes, e até aos ícones presentes no conjunto, como as palmeiras, o coreto, o relógio e, principalmente, os dois elementos que finalizam a perspectiva da avenida: o Palácio das Esmeraldas e o edifício da antiga Estação Ferroviária .