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Participação no concurso do Museu Nacional do Equador – 2ª Etapa

Um museu essencialmente equatoriano

Como imaginar um museu inexoravelmente vinculado a um lugar, a um país e a uma cultura? A essa pergunta procuramos responder. Para isso, precisamos indagar quais são as características mais notáveis e singulares desse lugar, desse país e dessa cultura que podem ser reconhecidas e mobilizadas para informar o desenho de um edifício.

Partimos da primeira condição que faz do Equador o Equador, que dá nome ao país: sua singular situação geográfica, meio do mundo, Linha do Equador.

Como a arquitetura pode captar e expressar essa condição? Entendemos a luz solar como fato concreto e peculiar expressão dessa singularidade: lugar do sol reto reconhecido desde as culturas originárias. Para tanto, uma incisão precisa no volume corta-o de leste a oeste deixando passar a luz e caracteriza o principal espaço de entrada do Museu. Nos equinócios, a linha de luz reforça a sua simetria marcando o eixo central da sala; nos solstícios, ilumina uma de suas paredes, inclinadas no mesmo ângulo de 23,5 graus dos solstícios ao meio dia. O eixo da sala é marcado desde a escadaria de entrada até o caminho que cruza o bosque à saída do Museu por meio da incrustação no piso de uma barra metálica de cor dourada com 8cm de largura, similar ao Metro da Segunda Missão Geodésica, obra destacada do acervo do Museu. Esse elemento de medida, reinterpretado, demarca a distância de 1.300km entre Quito e Galápagos no mapa do país gravado em baixo relevo no piso em basalto do hall, na escala 1:50.000. O balcão da recepção, com exatos 26 metros de extensão, corresponde, aos modos de uma régua, àquela distância territorial do país. Luz e geografia se somam para construir a experiência de chegada a esse Museu Nacional. Nenhum outro Museu Nacional tem as condições físicas e geográficas para a construção desse ambiente e dessa percepção.

A segunda condição que faz do Equador o Equador tomada como fundamento para o desenho do Museu é sua diversidade natural, expressa em sua variedade geográfica, topográfica, geológica e paisagística. De Galápagos à Amazônia, a condição de um país cuja paisagem é marcada pelas formações vulcânicas e os deslocamentos sísmicos informa o desenho do museu. Destaca-se o fato de que Quito se localiza no encontro entre duas linhas: a mencionada linha do Equador e, de sul a norte, o Megassistema de Falhas Guayaquil Caracas. Nesse contexto, os movimentos sísmicos operam cortes e descolamentos materiais nos maciços geológicos em movimento. Interpretada a ação de corte, deformação e deslocamento decorrente da movimentação das placas tectônicas e traduzida para outra tectônica, da construtividade do edifício, o corte leste-oeste fraciona a construção em duas partes, e mais sutilmente as esquinas frontais sofrem incisões que fragmentam as fachadas e produzem aberturas direcionadas para as duas principais paisagens – Guagua Pichincha e Parque La Carolina – enquanto algumas faces se inclinam e produzem um sólido maciço tensionado pela operação de modelagem. A materialidade do volume adota um metal presente na cultura equatoriana há milênios, hoje importante indústria em crescimento, o cobre. Exposto ao tempo, adquire uma característica pátina esverdeada que revela a incidência do tempo na matéria, como nos inúmeros artefatos cuidadosamente conservados pelo próprio museu. A matéria metálica do cobre se contrapõe a outra matéria de natureza mineral resultante da mesma condição geológica vulcânica e onipresente no país: a pedra basáltica em todos os pisos do térreo e nos volumes dos núcleos estruturais.

Pedra e metal, elementos constituintes e derivados de uma paisagem singular, expostos ao tempo, constituem o Museu Nacional com a mesma matéria que constitui a própria natureza mineral de inúmeros artefatos produzidos por diversas culturas originárias do país ao longo de milênios.

Assim como a singular geografia equatoriana tem sido um suporte perene que acolhe e influencia toda a produção cultural ao longo de milênios, chegando ao presente por meio de matérias transformadas por mãos humanas, imaginamos o Museu Nacional do Equador como uma infraestrutura perene, igualmente definida pela matéria geológica e mineral daquela mesma paisagem, para acolher, conservar e estimular a produção cultural tão rica e diversa do país.

Nesse sentido, o que se projeta e se pode construir é apenas a metade do museu. A segunda e mais importante metade são os seus acervos, as pessoas e o que está por vir. Para que essa existência futura seja fértil, os espaços são imaginados com a máxima capacidade de transformação no tempo, estabelecendo relações de integração com os espaços públicos para convidar as pessoas a entrar, e com precisão técnica, segurança e alto desempenho ambiental na construção e em toda a vida útil do edifício.

Como presença significativa que faça juz à importância da instituição, o volume principal, horizontal e fechado, elevado do solo, se diferencia da variedade das edificações do contexto imediato caracterizado pela verticalização e pela diversidade formal. A horizontalidade e a permeabilidade ao nível do chão procuram a difícil conciliação entre monumentalidade e atenção ao cotidiano.

A ideia, portanto, que aqui se apresenta procura condensar três escalas de interpretação da condição geográfica e paisagística do Equador para realizar seu Museu Nacional: a condição cósmica da relação singular com a luz, a força telúrica da matéria mineral ativada pela dinâmica sísmica e a reverência aos dois fatos notáveis da paisagem circundante: o Guagua Pichincha, patrimônio natural, e o Parque La Carolina, patrimônio cultural. Tudo o que se apresentará a seguir disso decorre, quase naturalmente.

Volumetria, matéria, forma e paisagem: monumentalidade e cotidiano

A aparente distinção volumétrica dos dois corpos principais objetiva tornar mais anônimo o edifício de apoio e serviços, que toma emprestado do vizinho Ministério da Agricultura y Ganaderia sua planta quadrada e sua estrutura ritmada, aqui interpretada em pilares de aço a cada 1,2m e painéis têxteis retráteis exteriores para atenuação solar. Procura formar com o Ministério um conjunto que se integra ao skyline da cidade de Quito, nesta região em franca transformação pelo processo de verticalização em curso. Em contrapartida, o volume principal que acolhe todas as atividades acessíveis ao público, procura se singularizar na paisagem e constituir a identidade do novo Museu Nacional do Equador. Sua horizontalidade dominante objetiva distiguir-se do skyline. A elevação do corpo principal propõe a abertura e continuidade do espaço público. A ausência de janelas, as incisões em quinas vivas e as sutis angulações das faces voltadas para Eloy Alfaro e Bulevar la Pradera conferem um sentido escultórico e monumental ao volume ao eliminar a presença de elementos arquitetônicos típicos das construções ordinárias, alterando a percepção de sua escala frente ao conjunto edificado da paisagem. Por último, sua materialidade contínua em cobre patinado define um sólido com presença estável e perene configurando a identidade de uma instituição igualmente estável e perene. Pensado para ser visto desde todos os lados com igual presença, desdobra o tratamento das fachadas no teto dos espaços térreos e em parte da cobertura, desenhada para ser reconhecida para quem observa desde as cotas altas dos edifícios do entorno.

O contraste entre a delicadeza e perenidade do cobre frente ao peso e resistência do basalto caracterizam o edifício público com uma paleta material mínima, igualmente contrastante com a variedade material do contexto. Pedra e metal rememoram a ancestralidade da geologia e da paisagem natural equatoriana ao mesmo tempo em que repercutem e interpretam, em um artefato contemporâneo, a aplicação milenar de dois materiais presentes em inúmeros artefatos arqueológicos preservados no próprio museu que atestam a vivacidade e o enorme domínio tecnológico dos povos originários do país e são projetados para o futuro, contribuindo para a construção da identidade do novo Museu Nacional.